Aos 80, Lula confirma disputa por 4º mandato com força nas pesquisas
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📅 27/10/2025

Aos 80, Lula confirma disputa por 4º mandato com força nas pesquisas

Mais longevo presidente eleito do País, Lula celebra 80 anos, anuncia que será candidato em 2026 e revisita uma trajetória que marcou a política, a economia e a diplomacia brasileiras.

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Ronny Teles

Ronny Teles

Combatente pela democracia

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) completa 80 anos nesta 2ª feira (27.out.2025). É o chefe do Executivo mais velho na história do Brasil. Nascido em 1945 em Caetés, então distrito de Garanhuns (PE), ele acumula quase meio século de vida política. Da liderança sindical à vitória no Planalto após a prisão na Lava Jato, tornou-se o único presidente eleito 3 vezes pelo voto direto.

O petista ombreia com Getúlio Vargas em tempo no poder. Diferente do gaúcho, que governou por longos anos com apenas uma eleição direta, Lula construiu sua carreira dentro das regras democráticas, mesmo após reveses judiciais que o levaram à prisão em 2018.

No 3º mandato, Lula vive seu melhor momento político. Pesquisas recentes indicam que seria reeleito no 1º turno se a eleição fosse hoje. Em 23 de outubro, ele anunciou que disputará a Presidência novamente em 2026.

A declaração foi feita ao lado do presidente da Indonésia, Prabowo Subianto, em Jacarta: "Eu quero lhe dizer que eu vou completar 80 anos, mas pode ter certeza de que estou com a mesma energia de quando eu tinha 30 anos de idade. E vou disputar um 4º mandato no Brasil", disse.

Lula já venceu 3 de 6 eleições presidenciais que disputou —sem considerar 2018, quando foi inscrito e depois barrado— e ajudou a eleger e reeleger Dilma Rousseff. É o político com maior experiência em campanhas presidenciais no Brasil.

Em Jacarta, ele ganhou uma festa de aniversário antecipada oferecida por Prabowo. Usando batik, traje típico da Indonésia, Lula deu o 1º pedaço do bolo ao presidente indonésio e o 2º à primeira-dama, Janja Lula da Silva.

Na Malásia, Lula refletiu sobre a idade: "Penso que quando um ser humano consegue completar 80 anos de idade com saúde, o máximo que posso fazer amanhã é agradecer a Deus por ter me colocado no mundo e, ao mesmo tempo, ter me dado saúde para completar 80 anos de idade. Tenho um compromisso com Deus que eu peço para viver até 120 anos de idade. Parece muito, mas não é muito no mundo de hoje, porque a ciência explica que já nasceu a pessoa que vai viver 120 anos. Então, eu me pergunto por que não eu viver esses 120 anos".

Janja escreveu nas redes: desejou que Lula siga "com brilho no olhar e sorriso no rosto, trabalhando para construir um mundo onde todas as pessoas tenham vez e voz" e disse que sua trajetória é "marcada pela luta, pelo humanismo e pelo respeito aos próprios princípios, sem nunca abaixar a cabeça para ninguém".

O presidente cumpre agenda oficial em Kuala Lumpur e retorna a Brasília no avião presidencial.

No governo (2023-2027), Lula enfrenta um Congresso mais à direita do que nas gestões anteriores, forte polarização e a ascensão da direita nas redes sociais, sobretudo entre jovens.

Ele recriou ministérios voltados a mulheres, igualdade racial e povos indígenas. Reativou o Fundo Amazônia, paralisado desde 2019, com apoio de Noruega, Alemanha e Estados Unidos. O combate à fome e os programas de transferência de renda seguem como prioridades.

No cenário internacional, busca projetar o Brasil como liderança global. Defende negociações que vão além do dólar e a criação de moedas alternativas para o comércio entre países do Sul Global, fortalecendo Brics e Mercosul.

Adota uma postura de mediação em conflitos, propondo negociações de paz na guerra entre Rússia e Ucrânia. A diplomacia de "3ª via" irrita aliados tradicionais, mas ressoa em países africanos, asiáticos e latino-americanos que buscam autonomia.

A idade voltou ao centro do debate após cirurgia de emergência em dezembro de 2024. Lula sofreu hemorragia intracraniana decorrente de queda no Palácio da Alvorada, em outubro, quando cortava as unhas. A craniotomia reacendeu discussões sobre a sucessão em 2026.

O tema expôs a fragilidade da esquerda: faltam nomes com capital político comparável ao de Lula. Sua ausência em 2018 levou à vitória de Jair Bolsonaro no pleito daquele ano.

Apesar dos sustos, Lula mantém rotina de exercícios, parou de fumar em 2010 após 50 anos de cigarrilhas e confirmou que disputará o 4º mandato. Costuma dizer que tem "energia de 30 e tesão de 20". Para a historiadora Lilia Schwarcz, "Lula é uma realidade na política profissional brasileira. Ele é uma forma de fazer política. É uma máquina política. Vamos ver o que essa máquina ainda vai produzir".

Caçula de 8 irmãos, o pernambucano migrou aos 7 anos com a mãe, dona Lindu, para Santos (SP) em busca do pai, que já tinha outra família. Depois, mudaram-se para São Paulo em 1956.

Lula começou a trabalhar aos 12 anos, formou-se torneiro mecânico no Senai e, em 1964, perdeu o dedo mínimo da mão esquerda em um acidente na metalúrgica Independência —marca que se tornaria um símbolo.

Aproximou-se do sindicalismo em 1967, levado pelo irmão José Ferreira da Silva, o Frei Chico, ao Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo.

Em 1975, assumiu a presidência do sindicato. Entre 1978 e 1980, liderou greves que mobilizaram 150 mil trabalhadores. Ao desafiar a ditadura militar, projetou-se nacionalmente e virou figura central do "novo sindicalismo".

No início de 1980, ajudou a fundar o PT no Colégio Sion, em São Paulo. Sua então mulher, Marisa Letícia, costurou a 1ª bandeira do partido.

Meses depois, foi preso com base na Lei de Segurança Nacional e passou 31 dias no DOPS.

Em 1982, adotou "Lula" no nome e disputou sua 1ª eleição, para o governo de São Paulo. O slogan "trabalhador vota em trabalhador" não bastou: ficou em 4º lugar, com 10,8% dos votos.

Participou ativamente das Diretas Já (1983-1984) e foi eleito deputado constituinte em 1986, integrando os debates que culminaram na Constituição de 1988.

Em 1989, na 1ª eleição direta pós-ditadura, chegou ao 2º turno contra Fernando Collor e perdeu por 53% a 47%. O jingle "Lula Lá" marcou época. Perderia novamente em 1994 e 1998 para Fernando Henrique Cardoso.

A vitória veio em 2002, na 4ª tentativa. Lula moderou o discurso, escolheu o empresário José Alencar como vice e lançou a "Carta ao povo brasileiro", comprometendo-se com contratos e responsabilidade fiscal. Venceu José Serra com 61% dos votos. Foi o 1º presidente brasileiro vindo da classe operária.

Os 2 primeiros mandatos (2003-2010) consolidaram políticas sociais: criação do Bolsa Família e o Fome Zero para combater a insegurança alimentar. Em 2010, recebeu da ONU o reconhecimento como campeão na luta contra a fome.

O Minha Casa, Minha Vida (2009) levou moradia a milhões. A valorização real do salário mínimo, os direitos para o trabalho doméstico e as cotas raciais nas universidades federais mudaram o perfil do país.

"Esses programas sociais são projetos de longa duração", disse Lilia Schwarcz. "Lula está endereçando questões que marcam a história brasileira, como a desigualdade social. São maneiras de mitigar esse problema, ainda que não tenhamos conseguido vencê-lo completamente".

O crescimento econômico acompanhou a inclusão. De 2002 a 2011, o Gini caiu de 58,2 para 52,4. O analfabetismo entre maiores de 15 anos recuou para 8,6%. O salário mínimo teve ganho real de 53,69% em 8 anos.

O país atravessou a crise de 2008 —o "tsunami" que seria "marolinha" no Brasil— e encerrou a década como a 6ª maior economia do mundo.

Emergiu a "nova classe média": 32 milhões de brasileiros ascenderam socialmente entre 2003 e 2008. A mobilidade virou símbolo do período e segue como principal bandeira de Lula.

No mandato, enfrentou o escândalo do Mensalão, que derrubou José Dirceu da Casa Civil. O caso marcou uma virada no combate à corrupção, com investigação ampla, julgamento no STF e condenações que pavimentaram o caminho para a Lava Jato.

Mesmo assim, foi reeleito em 2006 contra Geraldo Alckmin com 61% e encerrou o mandato com 87% de aprovação. Para Schwarcz, Lula é "um personagem incontornável" da história republicana.

Após deixar o governo em 2011, enfrentou um câncer de laringe. Curou-se em 2012, mas ficou com rouquidão permanente.

Seguiu ativo: apoiou a reeleição de Dilma em 2014, defendeu-a no impeachment de 2016 e manteve agenda em eventos internacionais e palestras.

Em 2017, perdeu Marisa Letícia, sua esposa por 43 anos, vítima de um AVC.

Quando a Lava Jato chegou a ele, Lula liderava as pesquisas para 2018. Foi condenado por Sergio Moro no caso do tríplex do Guarujá e ficou 580 dias preso na sede da PF em Curitiba, onde iniciou o relacionamento com Janja. Foi o 1º ex-presidente preso por crime comum.

Em 2019, o STF determinou sua libertação ao considerar inconstitucional a prisão em 2ª instância. Em 2021, o ministro Edson Fachin anulou as condenações por incompetência da vara de Curitiba e declarou Moro suspeito. A Vaza Jato indicou colaboração entre juiz e procuradores.

Em 2022, Lula venceu Jair Bolsonaro por 50,9% a 49,1% no 2º turno mais apertado desde a redemocratização. Bateu o recorde de votos por um candidato e tornou-se o 1º a derrotar um presidente que buscava reeleição. "É um personagem de muitas reviravoltas", diz Schwarcz. "Aceitou o julgamento, esteve na prisão, não criou resistência, não tentou dar um golpe e voltou, foi eleito democraticamente. É um caso muito singular."

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Publicado em 27 de outubro de 2025 às 09:41

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