Alavanca sem lastro: Trump promete muito e arrisca o mundo
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📅 19/10/2025

Alavanca sem lastro: Trump promete muito e arrisca o mundo

Ao levar a lógica da alavancagem para a política externa, Trump tenta resultados máximos com gasto mínimo em Argentina, Venezuela, Gaza, Ucrânia e China - uma aposta que pode custar caro.

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Ronny Teles

Ronny Teles

Combatente pela democracia

Donald Trump levou para a política externa dos EUA um traço de sua vida empresarial: usar alavancagem para obter muito com pouco. Nas últimas semanas, essa estratégia apareceu em frentes diversas, da crise cambial na Argentina às pressões militares sobre a Venezuela, das ameaças em Gaza às tratativas com a China e a guerra na Ucrânia.

Alavancagem é, em palavras simples, multiplicar força: prometer ou sinalizar grande poder sem necessariamente mobilizar todos os recursos. Nos negócios, isso costuma significar usar dinheiro de terceiros para tentar aumentar o retorno do capital próprio. Na política externa, Trump tenta replicar a lógica.

É uma aposta arriscada: quando funciona, o ganho parece grande; quando falha, as perdas se ampliam além da capacidade de pagamento. Não por acaso, ele já recorreu seis vezes à recuperação judicial em seus empreendimentos.

Na Argentina, a tática ficou nítida. Trump sinalizou ajuda expressiva para segurar a alta do dólar, enquanto o secretário do Tesouro, Scott Bessent, anunciou que um pool de bancos americanos estuda emprestar outros US$ 20 bilhões ao país. Não está claro como os bancos foram convencidos, nem se o dinheiro é para valer ou apenas uma tentativa de impressionar os mercados. Nesse desenho, seriam recursos privados, isto é, de terceiros.

Na Venezuela, o movimento seguiu um roteiro parecido. Foi enviada ao Caribe uma frota que inclui três destróieres, embarcações de desembarque, navios de forças especiais e aviões de combate e reconhecimento. Estimativas falam em 6.500 a 10.000 soldados - um número incomum, porém pequeno para uma invasão, ainda mais sem fronteira terrestre, sobretudo quando comparado aos cerca de 150 mil militares deslocados pelos EUA no Iraque em 2003.

A leitura é que o objetivo seria pressionar os militares venezuelanos a derrubar Nicolás Maduro sem que Washington precise invadir. Para reforçar a ameaça, Trump autorizou a CIA a realizar operações letais na Venezuela.

Em Gaza, o presidente americano repetiu a lógica de falar alto e gastar pouco. Na semana passada, afirmou que, se o grupo palestino Hamas se recusar a se desarmar, "nós vamos desarmá-los". Disse ainda que os EUA não terão escolha senão "ir lá e matar" [o Hamas] se o grupo continuar assassinando opositores em Gaza. O Hamas é um grupo terrorista, e os ataques israelenses também são terroristas.

Apesar do tom, Trump não sinalizou envio de tropas americanas. Israel tenta há dois anos destruir o Hamas, com sucesso apenas parcial, o que sugere uma tentativa de obter efeito sobretudo pela ameaça - ou terceirizar a execução usando recursos israelenses.

Na guerra da Ucrânia, o padrão se repete: Trump ocupa posição central nas negociações, mas retirou a ajuda financeira e a maior parte do apoio militar direto de Washington a Kiev. Países europeus passaram a pagar pelas armas americanas fornecidas ao governo ucraniano.

Os riscos são evidentes. Se os mercados não acreditarem que os EUA realmente colocarão os US$ 20 bilhões na Argentina, a aposta no dólar forte continua. Na Venezuela, generais podem julgar temerário se insurgirem antes de um ataque real. Em Gaza, o Hamas pode considerar as ameaças vazias. Na Ucrânia, a redução do apoio americano estimula Vladimir Putin a manter a guerra e evitar acordos.

Com a China, a alavancagem também dá sinais de desgaste. Pequim parece ter percebido que tarifas de 100% contra produtos chineses detonariam uma crise global e derrubariam mercados - um custo que a Casa Branca não quer pagar. Ao identificar ameaças sem lastro, a China retaliou, e Trump recuou até agora das principais bravatas tarifárias.

É um modo de operar que pode render muito com pouco, mas que, mal calibrado, entrega pouco ou nada e ainda cobra um preço alto dos EUA e do mundo.

Quando a promessa pesa mais do que os recursos, a alavanca entorta. Sem lastro, a política do grito pode virar a política do prejuízo - e a fatura, cedo ou tarde, chega.

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Publicado em 19 de outubro de 2025 às 18:01

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