Poliomielite, sarampo e tuberculose: o risco de novos surtos no Brasil com a baixíssima adesão às vacinas

Praticamente todos os imunizantes para crianças disponibilizados pelo PNI sofreram uma importante queda em 2020 e neste ano o cenário se repetirá, dizem os especialistas  

COMPARTILHE:

2021-09-23 08:36:19

O Globo

SÃO PAULO — Enquanto a imunização brasileira contra a Covid-19 avança a plenos pulmões — por volta de 67% da população já tomou ao menos uma dose —  as outras vacinas previstas no Programa Nacional de Imunizações (PNI) enfrentam maior dificuldade de chegar aos braços dos grupos elegíveis.

Covid-19: Anvisa determina recolhimento de vacinas dos lotes interditados de CoronaVac

Os dados mais amplos disponíveis no portal do Ministério da Saúde mostram que praticamente todas as vacinas disponibilizadas pelo PNI tiveram uma importante queda de adesão em 2020 — entram como exceção a DTP (difteria, tétano e coqueluche), a pentavalente (difteria, tétano, coqueluche, hepatite B e contra a bactéria haemophilus influenzae tipo B, que desencadeia infecções no nariz, meninge e na garganta.), além da hepatite B, dada após os 30 dias de vida.

Ainda que, é claro, a pandemia e suas necessárias quarentenas tenham causado impacto na decisão da população em buscar as doses, o abandono da vacinação por parte dos brasileiros figura como tendência em gradual aumento desde 2016. E que não aparenta estar próxima de ser solucionada, dizem os especialistas em imunização.

Para entender o cenário deste ano, basta observar a adesão à vacina do vírus da gripe (influenza), oferecida a grupos prioritários no Brasil. A campanha foi encerrada no mês de agosto e teve 67% da população elegível vacinada. A meta era de aplicar doses em 90% da população elegível, contabilizada em 79,7 milhões de brasileiros. 

Leia:  Doses suspensas da CoronaVac não provocaram reações adversas, diz governo de SP

Dados iniciais deste 2021 indicam que a vacinação segue longe do patamar esperado entre 90% e 95% de cobertura estipulada pelo Ministério da Saúde, para as vacinas disponíveis no PNI. Embora a contabilização ainda seja preliminar e possa sofrer com demora de atualização por parte dos estados, além de imprecisões, nenhum dos indicadores de cobertura de vacinas até aqui é superior aos de 2020, o pior ano da história recente para imunização no Brasil.

— A pessoa precisa ser estimulada, incentivada a vacinar-se. Sem essa provocação dificilmente sairá de casa para ir ao posto de saúde, ela tem outras prioridades.  Porque estão todos indo atrás da vacina da Covid-19? Porque estão vendo que é uma doença com alto risco de morrer, então torna-se uma prioridade — diz Carla Domingues, ex-coordenadora do PNI por oito anos (2011-2019).

Domingues enumera as razões para a baixa adesão, além da falta de uma campanha de divulgação ampla e convidativa à população e aos pais que precisam imunizar seus filhos. São eles: notícias falsas sobre os imunizantes, medo de efeitos adversos (embora as vacinas em uso tenham os riscos absolutamente inferiores aos benefícios de receber as doses), dificuldades operacionais relacionadas às filas e horários reduzidos em salas de vacina e além de falta de imunizantes — um problema global, com o mundo todo necessitando de mais aplicações do que as farmacêuticas são capazes de produzir.

Entrevista: Natalia Pasternak critica negacionismo e diz que decisão de não vacinar adolescentes foi 'irresponsabilidade'

O atual cenário, dizem os especialistas, não é atribuído aos grupos antivacina, mas sim a esses problemas de ordem logística e de conscientização.

A atual situação em que se encontra o PNI destoa do histórico construído pelo programa, galgado em altas coberturas vacinais. Com 36 mil salas de vacina, a logística da imunização brasileira consegue acessar as áreas mais remotas com apenas dias de diferença da vacinação dos grandes centros. Em geral, o acesso aos antígenos é universal. 

Procurado para comentar os dados de vacinação disponíveis, o Ministério da Saúde não respondeu à reportagem. Especialistas fazem a ressalva de que os números disponibilizados na plataforma da pasta podem sofrer por imprecisões, diante de uma mudança da metodologia de cadastro ocorrida nos últimos anos. Mesmo assim, afirmam que a queda de aplicações de doses é confirmada, inclusive, pelo retorno de doenças que antes estavam em estágio de controle.

 

Em certa medida, as vacinas são vítimas de seu próprio sucesso quando chegam às altas coberturas, como foi o cenário visto no Brasil até meados de 2015. Diante da redução drástica de doenças que anteriormente causavam temor, pais e responsáveis entram em um estado de falsa tranquilidade, em que aparentemente a ameaça de doenças imunopreveníveis está totalmente debelada — o que não é verdade. 

— A nossa preocupação é crescente. Temos um risco enorme de retorno de várias doenças que estavam controladas, mas que não estão erradicadas —  explica Mayra Moura, enfermeira e diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações  (SBIm). — Nosso grande receio é o retorno da poliomielite, por ser uma doença muito severa de complicações graves e impacto na sociedade, com uma grande quantidade de pessoas sequeladas.

Covid-19: Vacina da Pfizer/BioNTech é segura e eficaz para crianças de 5 a 11 anos, dizem fabricantes

Se a pólio, temida por todos os gestores de saúde, segue controlada, o mesmo não é possível dizer do sarampo, que voltou a circular no país. Em 2020, pelo menos 21 estados registraram a presença da doença. Trata-se de um cenário preocupante, porque pouco tempo antes, em 2016, o Brasil havia recebido o certificado de eliminação da circulação do vírus do sarampo pela Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS). A certificação, porém, foi retirada em 2019, devido a novos surtos da doença.

— Antigamente, as famílias tinham muito medo de que seus filhos pegassem sarampo, coqueluche,  que ficassem paralisados. Hoje em dia, são doenças que a população não conhece, nem os próprios profissionais da saúde. Então, a valorização da vacinação ficou menor— diz Renato Kfouri, médico pediatra e também diretor da SBIm.

Os especialistas em infectologia afirmam que, para reverter o quadro — o que é possível — será preciso unir esforços para ressaltar a importância da vacinação, de maneira contínua, com divulgação constante comandada pelo Ministério da Saúde e secretarias de Saúde regionais.  

— É preciso voltar a ter uma atenção a isso, com campanhas, estruturação. É possível, sim (voltar aos patamares anteriores), mas será necessária vontade política para isso — explica Kfouri. 

Aos pais que têm as carteirinhas de vacinação dos filhos em atraso, o infectologista do Hospital Oswaldo Cruz,  Ivan França, afirma que a oportunidade de imunizar as crianças não deve ser perdida. Dar o antígeno fora do tempo certo ainda é melhor do que não oferecê-lo. 

— Mesmo que tenham perdido a data de vacina, os pais devem procurar o posto de saúde, porque a vacinação será atualizada a partir do ponto onde parou, a criança toma o que está faltando — afirma o especialista.

Segundo a coordenadora do Programa Estadual de Imunização (PEI), Regiane de Paula, as pessoas que já receberam a primeira dose da vacina da Pfizer poderão concluir o esquema vacinal quatro semanas antes do prazo indicado na carteira de vacinação.

Ela afirmou que dois milhões de doses do imunizante serão encaminhados aos 645 municípios do estado para que possam fazer a antecipação.

 

O Globo, um jornal nacional: Fique por dentro da evolução do jornal mais lido do Brasil

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal

SÃO PAULO — Enquanto a imunização brasileira contra a Covid-19 avança a plenos pulmões — por volta de 67% da população já tomou ao menos uma dose —  as outras vacinas previstas no Programa Nacional de Imunizações (PNI) enfrentam maior dificuldade de chegar aos braços dos grupos elegíveis.

Covid-19: Anvisa determina recolhimento de vacinas dos lotes interditados de CoronaVac

Os dados mais amplos disponíveis no portal do Ministério da Saúde mostram que praticamente todas as vacinas disponibilizadas pelo PNI tiveram uma importante queda de adesão em 2020 — entram como exceção a DTP (difteria, tétano e coqueluche), a pentavalente (difteria, tétano, coqueluche, hepatite B e contra a bactéria haemophilus influenzae tipo B, que desencadeia infecções no nariz, meninge e na garganta.), além da hepatite B, dada após os 30 dias de vida.

Ainda que, é claro, a pandemia e suas necessárias quarentenas tenham causado impacto na decisão da população em buscar as doses, o abandono da vacinação por parte dos brasileiros figura como tendência em gradual aumento desde 2016. E que não aparenta estar próxima de ser solucionada, dizem os especialistas em imunização.

Para entender o cenário deste ano, basta observar a adesão à vacina do vírus da gripe (influenza), oferecida a grupos prioritários no Brasil. A campanha foi encerrada no mês de agosto e teve 67% da população elegível vacinada. A meta era de aplicar doses em 90% da população elegível, contabilizada em 79,7 milhões de brasileiros. 

Leia:  Doses suspensas da CoronaVac não provocaram reações adversas, diz governo de SP

Dados iniciais deste 2021 indicam que a vacinação segue longe do patamar esperado entre 90% e 95% de cobertura estipulada pelo Ministério da Saúde, para as vacinas disponíveis no PNI. Embora a contabilização ainda seja preliminar e possa sofrer com demora de atualização por parte dos estados, além de imprecisões, nenhum dos indicadores de cobertura de vacinas até aqui é superior aos de 2020, o pior ano da história recente para imunização no Brasil.

— A pessoa precisa ser estimulada, incentivada a vacinar-se. Sem essa provocação dificilmente sairá de casa para ir ao posto de saúde, ela tem outras prioridades.  Porque estão todos indo atrás da vacina da Covid-19? Porque estão vendo que é uma doença com alto risco de morrer, então torna-se uma prioridade — diz Carla Domingues, ex-coordenadora do PNI por oito anos (2011-2019).

Domingues enumera as razões para a baixa adesão, além da falta de uma campanha de divulgação ampla e convidativa à população e aos pais que precisam imunizar seus filhos. São eles: notícias falsas sobre os imunizantes, medo de efeitos adversos (embora as vacinas em uso tenham os riscos absolutamente inferiores aos benefícios de receber as doses), dificuldades operacionais relacionadas às filas e horários reduzidos em salas de vacina e além de falta de imunizantes — um problema global, com o mundo todo necessitando de mais aplicações do que as farmacêuticas são capazes de produzir.

Entrevista: Natalia Pasternak critica negacionismo e diz que decisão de não vacinar adolescentes foi 'irresponsabilidade'

O atual cenário, dizem os especialistas, não é atribuído aos grupos antivacina, mas sim a esses problemas de ordem logística e de conscientização.

A atual situação em que se encontra o PNI destoa do histórico construído pelo programa, galgado em altas coberturas vacinais. Com 36 mil salas de vacina, a logística da imunização brasileira consegue acessar as áreas mais remotas com apenas dias de diferença da vacinação dos grandes centros. Em geral, o acesso aos antígenos é universal. 

Procurado para comentar os dados de vacinação disponíveis, o Ministério da Saúde não respondeu à reportagem. Especialistas fazem a ressalva de que os números disponibilizados na plataforma da pasta podem sofrer por imprecisões, diante de uma mudança da metodologia de cadastro ocorrida nos últimos anos. Mesmo assim, afirmam que a queda de aplicações de doses é confirmada, inclusive, pelo retorno de doenças que antes estavam em estágio de controle.

 

Em certa medida, as vacinas são vítimas de seu próprio sucesso quando chegam às altas coberturas, como foi o cenário visto no Brasil até meados de 2015. Diante da redução drástica de doenças que anteriormente causavam temor, pais e responsáveis entram em um estado de falsa tranquilidade, em que aparentemente a ameaça de doenças imunopreveníveis está totalmente debelada — o que não é verdade. 

— A nossa preocupação é crescente. Temos um risco enorme de retorno de várias doenças que estavam controladas, mas que não estão erradicadas —  explica Mayra Moura, enfermeira e diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações  (SBIm). — Nosso grande receio é o retorno da poliomielite, por ser uma doença muito severa de complicações graves e impacto na sociedade, com uma grande quantidade de pessoas sequeladas.

Covid-19: Vacina da Pfizer/BioNTech é segura e eficaz para crianças de 5 a 11 anos, dizem fabricantes

Se a pólio, temida por todos os gestores de saúde, segue controlada, o mesmo não é possível dizer do sarampo, que voltou a circular no país. Em 2020, pelo menos 21 estados registraram a presença da doença. Trata-se de um cenário preocupante, porque pouco tempo antes, em 2016, o Brasil havia recebido o certificado de eliminação da circulação do vírus do sarampo pela Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS). A certificação, porém, foi retirada em 2019, devido a novos surtos da doença.

— Antigamente, as famílias tinham muito medo de que seus filhos pegassem sarampo, coqueluche,  que ficassem paralisados. Hoje em dia, são doenças que a população não conhece, nem os próprios profissionais da saúde. Então, a valorização da vacinação ficou menor— diz Renato Kfouri, médico pediatra e também diretor da SBIm.

Os especialistas em infectologia afirmam que, para reverter o quadro — o que é possível — será preciso unir esforços para ressaltar a importância da vacinação, de maneira contínua, com divulgação constante comandada pelo Ministério da Saúde e secretarias de Saúde regionais.  

— É preciso voltar a ter uma atenção a isso, com campanhas, estruturação. É possível, sim (voltar aos patamares anteriores), mas será necessária vontade política para isso — explica Kfouri. 

Aos pais que têm as carteirinhas de vacinação dos filhos em atraso, o infectologista do Hospital Oswaldo Cruz,  Ivan França, afirma que a oportunidade de imunizar as crianças não deve ser perdida. Dar o antígeno fora do tempo certo ainda é melhor do que não oferecê-lo. 

— Mesmo que tenham perdido a data de vacina, os pais devem procurar o posto de saúde, porque a vacinação será atualizada a partir do ponto onde parou, a criança toma o que está faltando — afirma o especialista.

Segundo a coordenadora do Programa Estadual de Imunização (PEI), Regiane de Paula, as pessoas que já receberam a primeira dose da vacina da Pfizer poderão concluir o esquema vacinal quatro semanas antes do prazo indicado na carteira de vacinação.

Ela afirmou que dois milhões de doses do imunizante serão encaminhados aos 645 municípios do estado para que possam fazer a antecipação.

 

COMPARTILHE:

COMENTÁRIOS

PUBLIQUE UM COMENTÁRIO

Enviar