Uma análise apontou falhas relevantes no material de mais de 3 milhões de páginas do caso Jeffrey Epstein, divulgado recentemente pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos (DOJ).
Dezenas de depoimentos colhidos pelo FBI não aparecem no acervo disponibilizado ao público — entre eles, três entrevistas ligadas a uma mulher que, há décadas, acusa Donald Trump de agressão sexual.
Um registro de provas entregue à defesa de Ghislaine Maxwell, associada de Epstein condenada por tráfico sexual, lista cerca de 325 memorandos de entrevistas do FBI, conhecidos como "302"; mais de 90 desses registros não estariam disponíveis no site do DOJ, o que representa mais de um quarto do total.
Segundo os arquivos, a mulher afirmou aos agentes ter sido abusada por Epstein desde os 13 anos e também acusou Trump de agressão sexual.
O deputado democrata Robert Garcia, membro do Comitê de Supervisão da Câmara, disse que a ausência dos documentos levanta dúvidas sobre o cumprimento da lei que determina a divulgação integral dos arquivos ligados a Epstein.
— Temos uma sobrevivente que fez alegações sérias contra o presidente. Mas existe uma série de documentos, que aparentemente seriam entrevistas conduzidas pelo FBI com a sobrevivente, que estão realmente em falta e às quais não temos acesso — disse Garcia.
Trump nega qualquer irregularidade em relação a Epstein. Em nota, a Casa Branca classificou as alegações como "falsas e sensacionalistas" e citou posicionamento anterior do DOJ segundo o qual alguns documentos continham acusações "falsas e sensacionalistas" contra o presidente.
O DOJ negou que qualquer registro tenha sido apagado e afirmou estar a cumprir a legislação.
— Não apagamos nada, e como sempre dissemos, todos os documentos relevantes foram produzidos — declarou um porta-voz.

Segundo o departamento, documentos ausentes podem ser duplicados, material protegido por privilégio legal ou parte de investigações federais ainda em curso. Alguns arquivos foram temporariamente removidos para "censura de vítimas" e posteriormente recolocados.

Especialistas ressaltam que os relatórios "302" são centrais para compreender a investigação do FBI sobre Epstein e Maxwell. Esses documentos resumem depoimentos prestados a agentes federais, embora não incluam análises ou conclusões formais.

— É o tijolo mais básico e importante da investigação — afirmou Andrew McCabe, ex-vice-diretor do FBI.

Detalhes sobre a maioria dos "302" aparentemente em falta permanecem amplamente censurados nos registros públicos.

Em um momento de entrevista, ao mostrar aos agentes uma fotografia conhecida de Trump com Epstein, o advogado da mulher teria indicado que a cliente estava receosa de implicar "indivíduos adicionais" por medo de retaliação.

Documentos judiciais de um processo contra a herança de Epstein mencionam uma vítima identificada como "Jane Doe 4", cujas alegações coincidem com os relatos apresentados ao FBI. A ação descreve abuso ocorrido na Carolina do Sul e encontros com "homens proeminentes e ricos", sem identificar nomes.

Não está claro qual foi o desfecho da investigação federal sobre essas alegações. Um e-mail interno do FBI incluído nos arquivos refere que "uma vítima identificada alegou abuso por Trump, mas acabou por se recusar a cooperar", sem confirmar se se trata da mesma mulher.

Algumas sobreviventes de Epstein também criticaram o processo de divulgação dos documentos. Haley Robson enviou carta a um juiz federal questionando a ausência de relatórios de entrevistas com vítimas, mesmo com nomes censurados: "Como sobreviventes, esta falha não é meramente processual — é profundamente pessoal. O incumprimento contínuo perpetua o mesmo segredo que permitiu que estes crimes continuassem impunes durante anos", escreveu.




