Milhões de páginas sobre Jeffrey Epstein continuam a dominar o debate nos Estados Unidos após a liberação de mais um lote de documentos pelo Departamento de Estado. Analistas avaliam o efeito imediato e de médio prazo sobre o presidente Donald Trump, que manteve amizade com Epstein por mais de uma década, ao menos até o início dos anos 2000.

Os chamados Epstein Files reúnem informações das investigações de 2006 a 2009 sobre abuso de menores, incluindo mensagens pessoais, fotos e vídeos.
A nova leva não muda a percepção geral, mas mantém sob os holofotes figuras que conviveram com um criminoso sexual já rotulado como tal desde 2008.
A proximidade entre Trump e Epstein é conhecida desde 2016. Idas e vindas do presidente sobre a prometida transparência — prometeu publicar tudo, recuou e foi pressionado pela ala mais radical de seus apoiadores — alimentaram a crise.
No último lote, há mais de 5,3 mil arquivos com mais de 38 mil referências a Trump, a Melania, ao clube Mar-a-Lago, na Flórida, e a termos relacionados.
Para Fernanda Brandão, coordenadora do curso de Relações Internacionais do Mackenzie Rio, o tema é delicado para Trump, embora ele reforce que nunca participou de atos criminosos.
"É um jogo de narrativas. Ele tenta se defender, mas pode criar um racha bastante importante na sua base eleitoral", avalia. A professora projeta que as eleições de meio de mandato, em 3 de novembro, serão um termômetro da popularidade do governo, com todas as 435 cadeiras da Câmara e 35 das 100 do Senado em disputa.
A inflação elevada pressiona o custo de vida e mina promessas de campanha feitas em 2024. Também pesa a repercussão de atos de violência praticados por agentes federais de imigração, mantendo o tema no topo das preocupações do governo.
Nesse cenário, cresce a probabilidade de o presidente perder o comando de ao menos uma das Casas do Congresso.
O fantasma de Epstein segue pairando sobre a Casa Branca. Ainda há muito por divulgar, e parte do que veio a público tem trechos censurados para proteger vítimas — sem clareza sobre até onde vai a censura nem se esconde nomes relevantes ligados a figuras públicas, inclusive o próprio Trump, acrescenta a professora.
O assunto é caro ao universo MAGA, o que torna o caso ainda mais perigoso para o presidente.
Trump aparece entre seis figuras de destaque sobre as quais arquivos do FBI incluem "informações escabrosas". Muitas acusações de agressão sexual relacionadas ao republicano derivam de ligações anônimas e dados ainda não verificados.
Em comunicado, o Departamento de Justiça afirmou que parte dos documentos contém alegações "falsas e sensacionalistas" apresentadas pouco antes da eleição de 2020, vencida pelo democrata Joe Biden.
É um modus operandi recorrente no trumpismo: transformar acusações — procedentes ou não — em um suposto complô de adversários indeterminados. "Ele já se previne, tentando ligar isso a um tema sensível como a eleição de 2020, colocando seu envolvimento como se fosse parte de uma conspiração para enfraquecer a sua imagem, para que ele perdesse a disputa", diz Brandão.
Tentando esfriar a crise, Trump pediu que os norte-americanos virem a página. Segundo ele, tudo não passou de "uma conspiração por parte de Epstein e outras pessoas". E emendou: "Já está na hora de o país pensar em outra coisa, como a saúde ou algo que importe às pessoas".
A popularidade do presidente segue frágil. Em pesquisa recente, 40% dos norte-americanos aprovam o desempenho de Trump, ante 56% que o desaprovam.
No mesmo levantamento, 42% dos eleitores creem que Trump caminha para ser um dos piores presidentes da história do país, enquanto 19% o veem na direção de se tornar um dos melhores.
Para 49% dos entrevistados, os Estados Unidos estão em situação pior do que há um ano, quando Trump sucedeu Biden; 32% consideram o país em condição melhor.
Mesmo sem novidades que incriminem diretamente Trump nos arquivos, a cautela da Casa Branca se explica pelo potencial explosivo do tema, que já atingiu nomes como o ex-embaixador do Reino Unido em Washington Peter Mandelson, que renunciou à Câmara dos Lordes.
Bill Clinton e Hillary Clinton prestarão depoimento no fim de fevereiro ao Congresso sobre seus laços com Epstein. Já o empresário Bill Gates afirmou se arrepender do contato.
A lista de citados nos arquivos inclui ainda Andrew Mountbatten-Windsor, Elon Musk e Richard Branson, entre outros.
