Escândalo: Mensagens revelam pressão de banqueiro para direcionar entrevistas na CNN
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Escândalo: Mensagens revelam pressão de banqueiro para direcionar entrevistas na CNN

Trocas de mensagens expõem exigências do dono do Banco Master para combinar perguntas e pautar a CNN Brasil em meio a repasses milionários.

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Ronny Teles

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Combatente pela democracia

Mensagens obtidas recentemente revelam que Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master, e Ana Matos, então responsável pelo marketing da instituição, exigiram da direção da CNN Brasil a combinação prévia de perguntas para uma entrevista com o objetivo de beneficiar a instituição financeira em abril de 2025. Nos diálogos, os dois interlocutores relatam que o Banco Master pagava cerca de R$ 10 milhões anuais em contratos de publicidade para a emissora. Diante das abordagens comerciais contínuas por parte do canal, a executiva chegou a desabafar: "A CNN me parece outro saco sem fundo de querer grana. Kk".

As conversas apontam também que houve uma solicitação de R$ 4 milhões a título de patrocínio para o evento "CNN Talks", além de tratativas e aportes financeiros para que o banqueiro ingressasse como sócio no canal CNN Money. Questionada formalmente, a CNN Brasil negou qualquer sociedade e afirmou que Daniel Vorcaro "nunca foi sócio da CNN Brasil ou do CNN Money. A emissora tem um único controlador, Rubens Menin. O Banco Master foi anunciante da CNN Brasil, com entregas de mídia convencionais nos intervalos comerciais e nas plataformas digitais. Os valores dos contratos comerciais são protegidos por cláusulas de confidencialidade, política aplicada a todos os anunciantes". A rede de notícias também assegurou que "reitera seu compromisso com a independência editorial, a transparência e os princípios éticos que orientam sua atuação jornalística, mantendo a clara separação entre suas áreas comercial e editorial".

Apesar da negativa, em uma mensagem enviada em outubro de 2024, a diretora de marketing do banco registrou que o Master já havia feito o "primeiro aporte como acionista" no empreendimento televisivo.

Em 3 de abril de 2025, logo após a divulgação da compra de 58% do Master pelo banco público BRB, Vorcaro debateu com sua assessora a repercussão negativa do negócio na imprensa e no mercado financeiro. A transação sofria fortes contestações técnicas de analistas e concorrentes logo após a publicação dos balanços do banco.

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Logo no início da manhã daquele dia, às 7h26, Vorcaro enviou mensagem: "Ana, falei c joao, acho que tenho que ir cnn falar do balanco e operacao", referindo-se a João Camargo, então presidente do conselho da CNN Brasil. A executiva respondeu que o executivo da emissora já havia feito contato e colocado o horário das 18h à disposição. Vorcaro então indagou: "O que acha".

A profissional de marketing incentivou a participação, impondo condições rígidas: "Eu respondi que ele tem que combinar com a gente antes as perguntas do Naka. Todas. Antes", escreveu ela, fazendo menção a Fernando Nakagawa, que comandava a cobertura econômica do canal. Ela completou: "A gente dizer o que queremos falar. Tudo combinado. 100%. Eu vou com vc." Em seguida, ponderou com ressalvas: "Ainda assim temos que pensar que o João eh amigo de todo mundo. Sempre tem 2 agendas."

João Camargo deixaria o comando do conselho da CNN Brasil meses depois, em agosto de 2025, em meio a desentendimentos com o proprietário do canal, Rubens Menin.

Receoso do desgaste de sua própria imagem perante a opinião pública, Vorcaro preferiu recuar e escalar outro representante. "O paulo falaria sobre balanço? Gala. Treinamos ele", propôs. A assessora respondeu que o economista-chefe Paulo Gala passaria por treinamento sem "cascas de banana". Às 11h55, o dono do banco confirmou a estratégia: "Vou deixar o paulo entrar. Mesmo. Ta muita batida em mim. Vamos deixar poeira abaixar na semana que vem eu entro". Pouco depois, ela confirmou: "Paulo Gala hoje cnn".

A entrevista foi ao ar ao vivo no CNN Money e depois desdobrada em texto institucional no portal da emissora. Na ocasião, Gala declarou que "para o BRB me parece que faz bastante sentido, porque é um banco que tem acesso a fundo mais barato", além de defender o Fundo Garantidor de Créditos como "o grande instrumento de fomento de crédito no Brasil". João Camargo não se pronunciou sobre o caso quando procurado.

Por sua vez, o jornalista Fernando Nakagawa informou que conduziu "a entrevista normalmente sobre o factual, que era o resultado do Master e a intenção de compra do BRB. Não lembro de nenhuma interferência na pauta, como a imposição de perguntas. Tanto que abordo temas não confortáveis ao Master, como a sustentabilidade da oferta de CDBs com 140% do CDI, se o banco estava dando lucro por que era tão importante procurar um sócio e sobre as críticas do uso do FGC e se o Master topava mudar a maneira de usar o FGC". O jornalista destacou ainda que "desconhecia temas relacionados à área comercial ou assuntos societários relacionados à empresa".

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Em setembro de 2025, a compra da instituição pelo BRB foi vetada pelo Banco Central, que, logo na sequência, em novembro do mesmo ano, decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master diante das graves irregularidades apuradas.

O controle sobre a pauta econômica já vinha sendo preparado semanas antes. No final de março daquele ano, a executiva relatou ter organizado dados favoráveis para exibição: "Levantei todos os pontos positivos do balanço para o João Camargo, para veicular amanhã na CNN money". Dias mais tarde, em 14 de abril, Ana comemorou nova intervenção: "Eu pedi essa entrada hoje na pauta. Paulo seguiu meu briefing. Defendeu CDB via segurança do FGC, e abordou concentração que eh nossa pauta contínua".

Identificou-se também que Daniel Vorcaro costumava redigir textos em conversas paralelas para retransmiti-los em seguida, tentando driblar eventuais rastreamentos de órgãos fiscalizadores.

Os registros indicam que o alinhamento com a rede de comunicação vinha sendo articulado desde 2024. Em 18 de setembro daquele ano, o banqueiro afirmou: "Ana, na verdade guarda isso com voce mas to entrando na cnn com o rubens menin." Ele ainda detalhou suas pretensões: "Mas cnn precisa aprovar. E eu entrar no conselho", justificando: "Pq esse canal sera conteudo escolhido por nos. Vc participando do editorial. Do conselho editorial de tudo."

Dias depois, a diretora de marketing detalhou valores pedidos pela cúpula comercial da emissora, apontando uma solicitação de 12 milhões por doze meses para a categoria de "sócio fundador" sob o modelo "cobranded com CNN". Ela propôs redirecionar os recursos já pagos pelo banco: "Nós já temos 10mm com eles/ano em CNN News. Eu renovo com eles esse valor pra CNN Money. Faria essa cota fundador Money exclusiva banco master." A sugestão incluía restrições a adversários: "Faria uma black list de quem não pode patrocinar. Colocaria alguém – pode ser eu – para entender conteúdo editorial do canal pra ver nossos interesses." Vorcaro concordou prontamente: "Concordo com tudo".

Em outubro de 2024, a interlocutora informou que executivos comerciais da emissora já consideravam o Master acionista após repasses iniciais, embora Vorcaro tenha expressado insatisfações pontuais dias depois: "Cnn deu um ruido grande. Nao gostei postura joao. Estou avaliando o que fazer."

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O canal econômico estreou em novembro de 2024 com o Banco Master apontado entre os cotistas-fundadores ao lado de corporações como Itaú Personnalité, Banco Inter, Qualcomm, Claro e Ambipar — empresa que também entrou na mira da Polícia Federal por suspeitas de conluio em fraudes financeiras com o banco de Vorcaro.

Além da programação contínua, os documentos confirmam o patrocínio de eventos promovidos pela emissora, descritos como fóruns para reunir "autoridades e empresários para falar sobre os desafios e as oportunidades para o crescimento da Indústria no país na visão do setor privado."

A negociação desse evento gerou atritos pelo montante pedido incialmente: "Eles me mandaram 4mm de patrocínio. Com a mensagem: Ana, consegue chegar em 4K? Achei muito. Ele me disse que tem o canal CNN Money vindo. Esse valor já não poderia estar dentro desse fee de patrocínio, que será $$$?", alertou a diretora. O valor provocou espanto em Vorcaro ("Que isso"), que determinou: "Negocia aí". O acordo acabou fechado por R$ 1 milhão: "Fechei 1mm com a CNN. Não sei se eles vão ligar pra vc, mas tá fechado com o VP do João. Foi tudo bem".

Vorcaro cancelou sua presença no palco ao saber que o presidente de um grande banco concorrente não estaria presente para compor a mesma mesa.

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As cobranças financeiras constantes da emissora seguiram gerando críticas internas no banco. No início de outubro de 2024, a responsável pelo marketing orientou manter a verba de R$ 10 milhões anuais apenas migrando a veiculação para o canal financeiro, sem aportar novos recursos adicionais exigidos pelo setor comercial da rede.

A assessora de marketing deixou suas funções no final de 2025. Daniel Vorcaro encontra-se preso preventivamente em Brasília desde março, após ter três tentativas de delação premiada rejeitadas pela Justiça enquanto respondia pelas fraudes de sua instituição.

Em nota oficial, a CNN Brasil reiterou que Vorcaro jamais integrou o quadro societário da empresa, apontando que o banqueiro participou unicamente de iniciativas comerciais através do departamento de publicidade, e garantiu manter rigorosa separação ética entre suas transações corporativas e a redação jornalística.

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