Dez anos depois do surgimento do MBL, Kim Kataguiri afirmou que o movimento passou por "uma mudança de visão ideológica" e elevou o tom contra Jair Bolsonaro. O deputado disse que o ex-presidente "deve ir para a cadeia, sim" e só sair para tratamentos médicos quando necessário.
Kataguiri se prepara para lançar oficialmente o Missão, novo partido que pretende ter candidato próprio ao Planalto em 2026: Renan Santos. Como não tem idade mínima para disputar a Presidência, ele discute concorrer ao governo de São Paulo ou buscar um novo mandato na Câmara.
O parlamentar descartou qualquer apoio à família Bolsonaro, mesmo diante de uma frente ampla. "Em nenhuma hipótese." Questionado sobre Eduardo Bolsonaro, foi direto: "Ninguém da família." Se essa fosse a alternativa, disse que voltaria a anular o voto: "Não. Anularia o voto de novo."
Em críticas ao governo Bolsonaro, o deputado afirmou que a promessa de combate à corrupção "acabou a partir do momento em que ele precisou blindar o filho de uma investigação" e que "vendeu o país inteiro em troca dessa blindagem". Ele citou o veto ao fim das decisões monocráticas no passado, a escolha de Augusto Aras para a PGR, o fim da Lava Jato e votos do ministro Kassio Nunes em decisões que favoreceram réus.
Kataguiri disse acreditar que Bolsonaro tentou um golpe de Estado. "Eu acho que ele tentou de fato dar um golpe de Estado", afirmou, relatando a "minuta de golpe" impressa no Planalto e a negativa do comandante do Exército. "Então a gente esteve a um sim — o sim do comandante do Exército — de ter um golpe de Estado."
Mesmo reconhecendo vícios processuais no julgamento, ele defende o cumprimento de pena em regime fechado. "Só se for inevitável que ele tenha um cuidado de saúde constante, o que não me parece ser o caso agora. Parece que ele tem problemas graves, mas pontuais, em que ele pode sair do presídio para ir ao hospital."
O deputado reiterou que seu apoio a Bolsonaro em 2018 foi "voto útil" e que, conhecendo os fatos de hoje, não repetiria a escolha. "Estou na política para cumprir uma missão", disse sobre os próximos passos.
Na economia, Kataguiri criticou o fura-teto reiterado e chamou a "PEC kamikaze" de 2022 de rombo eleitoral. Lembrou promessa frustrada de Paulo Guedes: "Reforma tributária, vou mandar semana que vem", ironizando os dois anos de espera. No funcionalismo, disse que a reforma proposta deixou de fora membros de Poder, contrariando o discurso de "acabar com a mamata".
Ele relatou bastidor de 2022: segundo o deputado, Bolsonaro ligou para barrar sua indicação à presidência da Comissão de Educação por temer convocações e investigações. Kataguiri afirma que, mesmo assim, o partido manteve seu nome.
O deputado afirmou ter mudado de visão sobre privatizações. "Aquilo que é público, que funciona bem, não precisa ser privatizado." Ele defendeu olhar pragmático, citando Embrapa, Embraer/ITA e a medicina da USP como referências que não exigem privatização.
Sobre o SUS, rejeitou a ideia de privatização do sistema, mas atacou o modelo de gestão. Para ele, há hospitais estatais que deveriam passar à iniciativa privada, enquanto outros, como HCs de universidades, funcionam bem. O ponto, disse, é eficiência, não dogma.
Na segurança, o Missão propõe adotar o chamado Direito Penal do inimigo e "uma literal - não retórica - declaração de guerra ao crime organizado". "Na prática, nós defendemos uma nova Constituição para que haja pena de morte e prisão perpétua para faccionados", afirmou, graduando as penas conforme a hierarquia no crime.
No orçamento, defende desvinculações para dar liberdade de gestão a prefeitos, governadores e presidente. Criticou a ideia de constitucionalizar gastos setoriais: "Se nós formos vincular na Constituição tudo o que o presidente da República deve gastar em cada setor, a gente não precisa de presidente da República, deixa a Constituição executando o orçamento automaticamente."
Kataguiri propõe corte "profundo" de privilégios de elites pública e privada. Ele estima "pelo menos R$ 15 bilhões de supersalários" em magistratura e Ministério Público, além de benefícios acima do teto no Legislativo, e pede revisão de renúncias fiscais.
Para aprovar a agenda, aposta em vitória nas urnas e comunicação. "A melhor maneira de construir uma maioria fácil no Congresso Nacional é tendo um programa popular, saindo forte das urnas", disse, projetando avanço já no primeiro ano de governo.
Na tributação, ele se disse contrário a elevar impostos sobre altos rendimentos e chamou de falsa a narrativa de que ricos pagam pouco IR. "Primeiro, que é mentiroso o discurso do governo de que o mais rico [...] paga a alíquota de 2% a 8%", argumentou, citando carga via pessoa jurídica. "A tributação hoje já é suficiente", defendendo reduzir impostos sobre consumo.
Sobre a disputa presidencial, Kataguiri disse que só apoia Renan Santos. Argumentou que, entre jovens mais engajados, o aliado já pontua e que visibilidade prévia em cargos não é determinante. "Renan Santos", respondeu quando questionado sobre nome competitivo hoje.
Questionado sobre Lula, ouviu-se que pesquisas indicam o presidente consolidado na frente. Mesmo assim, Kataguiri repetiu a avaliação de que o petista pode não disputar. "Não." E completou: "Acho que é mais provável que ele não seja do que seja." Ele citou movimentos do PT em capitais e a preocupação do partido com o pós-Lula.
Ao comentar o julgamento de Bolsonaro, criticou a condução no STF: discussões sobre foro, julgamento em turma e o chamado "data dumping" com grande volume de dados. "Acho que o Supremo atropelou o processo", disse, sem afastar a defesa de prisão do ex-presidente.
Por fim, Kataguiri afirmou que o MBL sobreviveu à perseguição do bolsonarismo desde 2019 e que o novo partido vai priorizar militância e propósito, mesmo com menos tempo de TV e recursos. "Não é um projeto que eu acredito e eu não estou na política para me perpetuar no poder. Eu estou para cumprir uma missão."

