O racha no núcleo do bolsonarismo ficou escancarado após Silas Malafaia partir para cima de Paulo Figueiredo, enquanto Carlos Bolsonaro criticou a falta de apoio de Michelle Bolsonaro à pré-candidatura de Flávio Bolsonaro. A turbulência aumenta a desconfiança de aliados e dificulta alianças.
Guru de Jair Bolsonaro, Silas Malafaia perdeu a paciência mais uma vez com a trupe do filho "01" do ex-presidente, Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que tem comandado ataques, usando seu fiel escudeiro Paulo Figueiredo, após o pastor midiático se alinhar a Michelle Bolsonaro e Nikolas Ferreira (PL-MG), se recusando a apoiar a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao Planalto.
Malafaia foi provocado por Figueiredo depois de afirmar, nesta terça-feira (24), que Eduardo "calado, vai ajudar muito mais o irmão [Flávio] do que abrindo a boca para falar asneira. Ele calado vai ser um belíssimo cabo eleitoral para o irmão".
Paulo Figueiredo destilou ironias ao sair na defesa de Eduardo. "Há alguns dias não queria Flávio como candidato de jeito nenhum e dizia que não tinha chances. Agora, já está querendo dar pitacos sobre como o Flávio deve ser apoiado. Não deixa de ser um avanço, não é? Vou deixar o pastor amadurecer um pouco as ideias".
No final da noite, Malafaia foi às redes e editou um vídeo para atacar Figueiredo, neto de João Baptista Figueiredo, que foi classificado pelo guru de Bolsonaro como "filhote da ditadura".
"A direita precisa saber quem é Paulo Figueiredo, o filhote da ditadura", escreveu Malafaia.
O vídeo, editado pelo pastor, dá a entender que Figueiredo seria uma espécie de agente duplo, infiltrado no bolsonarismo, mas que defende Lula.
"Eu fui um grande defensor do Lula Livre, um grande defensor do Lula Livre, um grande defensor do Lula Livre", repete o vídeo, destacando ainda outra fala em que Figueiredo, de forma irônica, diz que é "o cara do Lula Livre na direita".
Nesta terça-feira, foi a vez de Carlos Bolsonaro (PL-RJ) alfinetar a madrasta nas redes sociais compartilhando dois tuites em que critica a "omissão" da enteada e de aliados dela, como Malafaia e Nikolas, que têm ignorado a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) nas redes sociais.
Em um primeiro tuite, Carlos diz que a divulgação da candidatura do irmão está sendo feita por "tias do Zap e tios do churrasco", enquanto é ignorada por aliados próximos nas redes sociais.
"Já se passaram quase dois meses desde que Jair Bolsonaro, preso ilegalmente e torturado, lançou seu filho como pré-candidato à Presidência da República. O lado curioso, e talvez positivo, é ver Flávio Bolsonaro liderando apenas com as divulgações maciças das tias do zap e dos tios do churrasco", iniciou.
Em um texto pouco inteligível, o vereador carioca – que renunciou o sexto mandato para disputar vaga ao Senado por Santa Catarina -, dá a primeira alfinetada na madrasta, dizendo que "política real não se sustenta só em entusiasmo espontâneo".
"Precisa de método, estratégia, leitura de cenário e, sobretudo, presença. Quando isso não acontece, o apoio vira ruído e o tempo começa a cobrar", emendou, em recado ao aliados que silenciam sobre a pré-campanha do irmão.
Em publicação divulgada logo a seguir, Carlos é mais direto e pede para que os seguidores "fazer as contas, observar com calma e comparar" as redes sociais daqueles que dizem apoiar a candidatura do irmão. Michelle, segue em silêncio.
"Coincidentemente (ou não), há aquelas que trabalham para mostrar o pré-candidato a PRESIDENTE indicado por Jair Bolsonaro em suas timelines – e aquelas que simplesmente não mostram", alfineta.
"Não é acusação. É constatação empírica. E constatação pede alinhamento, não silêncio", emenda o "02".
Considerado o "expert" do clã nas redes sociais, Carlos faz um apelo diante da desconfiança crescente de potenciais aliados, que têm se distanciado de Flávio em razão das brigas familiares recorrentes.
"Se a proposta é união, ela precisa aparecer na prática. Comunicação também é ação política. Quando uns somam e outros se omitem, a mensagem que fica é confusa, e confusão enfraquece. Assim acaba parecendo que se deseja algo que todos nós sabemos que não se deseja. Não é mesmo?", indaga.
A briga latente no núcleo central do clã Bolsonaro, com os filhos atacando a enteada, tem causado uma debandada de aliados não tão próximos e dificultado a formação de alianças com o Centrão e a centro-direita.
Na última semana, Eduardo Bolsonaro voltou a fazer ataques abertos a madrasta e a Nikolas Ferreira, com quem já não conversa mais, mas é tido como apoio fundamental na eleição presidencial em Minas Gerais, segundo maior colégio eleitoral do país.
Em entrevista, o filho "03" de Bolsonaro afirmou que Michelle e Nikolas "estão com amnésia".
"Nikolas e Michelle estão jogando o mesmo jogo. Você vê um lado a lado, compartilha o outro e se apoia na rede social. Estão com amnésia, talvez, não sei por qual motivo […] não quero gerar mais polêmica, mas acho que todo mundo sabe o que está acontecendo", afirmou – veja o vídeo.
Em seguida, Eduardo Bolsonaro envia uma indireta ao deputado mineiro: "O Nikolas está em seu primeiro mandato de deputado federal e é muito simples… tanto ele quanto a Michelle, que não tem mandato, é muito simples enxergar o cenário. A eleição está polarizada. Vai ser Flávio Bolsonaro contra Lula."
Posteriormente, o ex-deputado afirma que Michelle compartilha posts de Nikolas, mas ignora Flávio Bolsonaro.
"Com certeza [a Michelle sofre de amnésia], eu não estou vendo ela apoiar o Flávio Bolsonaro […] eu, pelo menos, não vi nenhum apoio da Michelle, nenhum post a favor do Flávio. Ela compartilha o Nikolas toda hora", atacou.
Antes, Michelle pediu para os seguidores que a cobravam do apoio a Flávio deixarem de segui-la nas redes sociais, após compartilhar um vídeo em seu perfil no Instagram em que o governador Tarcísio Gomes de Freitas (Republicanos) ataca o desfile da Acadêmicos de Niterói, escola de samba que homenageou Lula na Sapucaí.
Seguidores da ex-primeira-dama lembraram que o enteado, ungido pelo pai como pré-candidato à Presidência, também fez vídeo sobre o assunto e pediram para Michelle "divulgar nosso futuro presidente Flavio Bolsonaro em suas redes".
"Supera mulher teu marido escolheu Flávio", escreveu um seguidores. "Cadê o vídeo do Flávio??? Tá frustada por não ter sido indicada pelo próprio marido e tá sabotando a indicação do próprio LÍDER????", emendou outro.
As cobranças provocaram a fúria da ex-primeira-dama, que reagiu dizendo que se tratava de um perfil privado e mandando os seguidores que "andam se doendo" pararem de segui-la.
"Para quem anda se doendo demais: este perfil é privado e a escolha dos vídeos é minha. Fiquem à vontade para sair", comentou Michelle na própria publicação.
O comentário gerou ainda mais revolta nos seguidores, que passaram a apontar a "arrogância" da ex-primeira-dama.
"Gosto demais da Senhora @michellebolsonaro, mas acho muita arrogância convidar seus seguidores a sair (caso discorde das suas postagens. Vou seguir seu conselho: DEIXANDO DE SEGUIR", escreveu um seguidor.
"Não vou sair!!! Mesmo não concordando com você. Quero saber se isso é uma estratégia ou você realmente está contra a posição do Presidente Jair Messias Bolsonaro", emendou outro.
