As buscas por Roberto Farias Thomaz, 19 anos, entraram no quinto dia no Pico Paraná, ponto mais alto do Sul do Brasil. A amiga que o acompanhava, Thayana Smith, disse ter procurado a família e assumiu o erro de seguir na frente, enquanto equipes de bombeiros e voluntários seguem mobilizadas na montanha.
— Esse foi meu erro. Eu conversei com família e eu assumo meu erro. Eu sei que errei nisso de ter deixado ele ter vindo sem mim, mas tinham outras pessoas com ele. Não tinha como se perder. Não sei o que aconteceu — disse ela.
Vídeos em que Thayana relata o ocorrido viralizaram e geraram críticas por ela ter deixado o amigo para trás na trilha, justificando por seu "estilo de vida". Depois, ela afirmou ter tirado um "aprendizado": "nunca mais andar com alguém que não é experiente em trilhas, não é seu estilo de vida e não tem pique para isso".
Em outra postagem, ela compartilhou a frase: "Interrogações, investigações, eita 2026 kkkkk. Feliz Ano Novo", com um emoji de risada.
Parentes pediram que internautas não fizessem suposições sobre a conduta da amiga e reforçaram que o foco é localizar Roberto. A Polícia Civil investiga o caso.
A família mobiliza montanhistas e trilheiros experientes e alertou para golpes na web, afirmando que não existe campanha de arrecadação de dinheiro para o resgate. "Agradecemos imensamente as ajudas. Continuamos precisando de pessoas que ajudem nas buscas nessa região! Alpinistas, montanhistas e trilheiros", diz uma das mensagens.
Thayana contou que chegou ao acampamento 1 por volta das 7h50, descansou e, cerca de uma hora depois, foi avisada por outros trilheiros de que Roberto poderia estar perdido.
"Eles perguntaram sobre o Roberto, eu disse que ele estava vindo atrás. Daí eles falaram que ele deveria estar perdido. Nos preparamos em 15 minutos e fomos atrás dele. Passamos sede, fome, tivemos que nos ajoelhar para tomar água de lama porque gritamos muito. Chegou um momento que estávamos muito cansados, e os bombeiros mandaram a gente voltar para não sermos outras vítimas", relatou.
Testemunhas disseram que houve um desentendimento entre os dois durante a trilha. Em entrevista, Thayana confirmou que chegou antes ao acampamento e afirmou que Roberto vinha logo atrás. "Eu fico com pensamento ruim por ter deixado ele para trás. Se eu não tivesse me separado, talvez não teria acontecido isso, porque quem tinha mais experiência era eu", declarou.
O primo de Roberto, Raul Farias Batista, pediu nas redes sociais que as pessoas evitem julgamentos. "O foco não pode ser esse. A Polícia Civil já está investigando o caso e confiamos no trabalho deles. Temos fortes motivos para acreditar que o Betinho está 'apenas' perdido e com vida no meio da mata", escreveu.
Desde o amanhecer, equipes do Corpo de Bombeiros do Paraná, com apoio de montanhistas voluntários especializados, atuam com helicóptero, drones, rapel e sobrevoos com câmera térmica. A investigação policial acompanha as circunstâncias do desaparecimento, registrado oficialmente pela família no sábado (3).
Roberto não é visto desde a manhã de quinta-feira (1º), quando descia a trilha após passar o réveillon no Pico Paraná com uma amiga. Ele iniciou a subida na noite de quarta-feira (31), passou mal no trajeto, mas alcançou o cume por volta das 4h do dia seguinte. Depois de descansar, começou a descida e acabou se separando do grupo.
No dia 1º, por volta das 13h45, uma equipe do Grupo de Operações de Socorro Tático foi mobilizada para iniciar as buscas oficiais. Outras equipes se somaram ao trabalho, que avançou pela madrugada. Também participam montanhistas do Corpo de Socorro em Montanha e corredores do Clube Paranaense de Montanhismo.
A Polícia Civil abriu investigação após o boletim de ocorrência. O delegado Glaison Lima Rodrigues informou que, inicialmente, o caso é tratado como desaparecimento e, até o momento, não há indícios de crime.
"Não há elementos iniciais de uma infração penal, mas caso fique caracterizado o mínimo indício dessa ocorrência de infração penal, haverá uma conversão desse boletim de ocorrência e análise em um inquérito policial ou um termo circunstanciado para que seja encaminhado ao Poder Judiciário", afirmou o delegado.
Por recomendação dos bombeiros, o Instituto Água e Terra restringiu temporariamente o acesso ao Parque Estadual Pico Paraná. Os morros Caratuva, Pico Paraná, Getúlio e Itapiroca estão fechados a visitantes; Camapuã e Tucum seguem liberados.
O analista jurídico e montanhista Fabio Sieg Martins disse que encontrou o grupo na trilha e acionou o resgate ao perceber que Roberto não havia chegado ao acampamento base. "Quando a gente chegou no acampamento A1, venceu os grampos e tudo mais, estava a menina na barraca. Aí eu pergunto pra ela: 'Cadê o Roberto?'. Ela não sabia. Aí bateu o desespero. Eu falei: 'o guri deve ter se desorientado lá no A2, está perdido lá em cima'. No primeiro ponto que dava sinal de celular, liguei para o Corpo de Bombeiros e situei a posição e as referências que nós tínhamos ali", contou.
Segundo ele, durante a subida, Roberto mostrava sinais de debilidade. "Quando chegamos perto da esfinge, vi que o Roberto tinha ficado um pouco para trás. Perguntei se ele estava bem, mas ele estava vomitando. Orientamos ele a ir com calma, demos chocolate e água. Ele melhorou, comemoramos e seguimos".
Martins afirmou que alertou Thayana para não deixar o rapaz sozinho. "Eu falei: você não pode abandonar ele, ele estava doente, aqui é um ambiente hostil. Aí ela foi. Quando chegamos no acampamento 1, encontramos a menina na barraca, e ela não sabia onde ele estava. Tivemos que voltar pela trilha, mas não conseguimos localizar o Roberto", disse.
A irmã de Roberto, Renata Farias Thomaz, acompanha as buscas na base e tem pedido mais recursos de apoio aéreo. "A esperança nunca acaba. É angustiante, mas as chamadas que temos pedido para a pessoa ajudar estão funcionando. Eu tenho muita fé que hoje vou voltar com ele para casa", afirmou.
Ela também cobrou esclarecimentos sobre pontos considerados nebulosos. "Todo mundo que desceu com ela falou uma coisa, daí o Fábio falou, daí ela falou, e vai ficando uma lacuna que não está fechando. A Polícia Civil é para isso, para perguntar de forma técnica. A gente já entendeu que ele passou mal, mas tem uma parte que faltou informação", disse.
A família pede que montanhistas experientes, especialmente quem conhece o Vale do Cacatu e a trilha do Saci, se cadastrem na base do Corpo de Bombeiros para atuar como voluntários. As buscas seguem sem previsão de encerramento.



