Ataque dos EUA à Venezuela abala a ordem multilateral
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📅 05/01/2026

Ataque dos EUA à Venezuela abala a ordem multilateral

Especialistas apontam violação da soberania, risco à América do Sul e ferida nas instituições internacionais; Brasil, sob Lula, reforça diplomacia e não intervenção.

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Ronny Teles

Ronny Teles

Combatente pela democracia

Os ataques feitos pelos Estados Unidos à Venezuela no sábado (3) para derrubar o presidente, Nicolás Maduro, foram vistos por especialistas como uma ameaça à ordem multilateral e um alerta para os países da América Latina.

Militares americanos retiraram à força Maduro e sua mulher, Cilia Flores, do território venezuelano, em uma ação que matou forças de segurança do presidente e provocou explosões em Caracas. Maduro foi levado para Nova York e, segundo os EUA, responderá no país a acusações de suposta ligação com o tráfico internacional de drogas.

Para analistas de relações internacionais, a operação representa um ataque direto à soberania venezuelana e amplia a instabilidade regional.

"Primeiro, porque não existe, no direito internacional, um atestado para que os Estados Unidos operem como polícia do mundo", diz Bruno Lima Rocha, cientista político e professor de relações internacionais.

"Em segundo lugar, porque, mesmo que as acusações contra Nicolás Maduro fossem verdadeiras – o que, de fato não são –, a ONU ou o sistema de instituições internacionais não delegaram para os Estados Unidos poder para sequestrar, capturar ou intervir em um país soberano", argumenta o professor.

Entre as justificativas apresentadas por Washington está a alegação de que Maduro teria vínculos com grupos narcoterroristas que abastecem o mercado de drogas dos EUA.

"Do ponto de vista legal, isso foi um absurdo. Uma agressão imperialista pura e simples", disse Bruno Rocha, que classifica a operação como "sequestro" e alerta para o risco de os EUA tentarem controlar o petróleo venezuelano, o maior do mundo em reservas.

Segundo os pesquisadores, países latino-americanos com grandes riquezas minerais também passam a enfrentar maiores incertezas.

No caso do Brasil, Bruno Rocha avalia que, se o país optasse por um monopólio estatal na exploração de minerais críticos, a tensão cresceria — sobretudo se firmasse acordos nessa área com Rússia e China e usasse moedas alternativas ao dólar.

Ele pondera, no entanto, que a legislação brasileira atual permite a exploração por empresas estrangeiras sob regulação nacional e não aponta para um monopólio real de minerais estratégicos e terras raras.

Gustavo Menon, docente na USP e na Universidade Católica de Brasília, considera que o Brasil está em uma "posição muito delicada" no contexto geopolítico.

Na avaliação de Menon, a tendência brasileira é fortalecer a via da diplomacia e da cooperação, mantendo a defesa dos direitos humanos, da não intervenção e da solução pacífica de conflitos — linha reforçada pelo governo Lula.

"O Brasil vê com muita preocupação essa intervenção armada direta em solo sul-americano", disse Menon. "Em termos do posicionamento, o Ministério das Relações Exteriores brasileiro vem sinalizando exatamente pela legitimidade de Delcy Rodrigues [vice-presidente da Venezuela] como presidente interina", afirmou.

"Essa ação sem precedentes por parte dos EUA acaba quebrando a América do Sul como uma região de paz", acrescentou.

Para Menon, a operação fere princípios do direito internacional e também normas internas dos Estados Unidos, já que não houve aprovação do Congresso para a incursão militar nem mandado que visasse à captura de Nicolás Maduro.

Do ponto de vista global, os pesquisadores ressaltam que o sistema multilateral construído após a Segunda Guerra Mundial sai atingido do episódio.

"No fundo, estamos presenciando o colapso desse sistema multilateral. Essa institucionalidade simplesmente virou pó", disse Menon.

Bruno Rocha avalia que a agressão evidencia que Donald Trump "colocou na lata do lixo" instituições erguidas no pós-guerra.

"Do ponto de vista do Século 21, é um momento novo. O sistema ONU, uma tentativa de arranjo pós-Segunda Guerra, vem sendo desmontado pelos próprios Estados Unidos".

Menon chama atenção para os próximos passos de Washington na região: "Até porque sabemos que a questão do petróleo é elemento essencial, e que a Venezuela é o país com a maior reserva de petróleo no planeta, além de ser também um país amazônico".

Ele destaca que a América do Sul, rica em recursos naturais, entrou com mais intensidade na corrida geopolítica e geoeconômica contemporânea.

O professor observa que ainda não está claro como se dará a tutela sobre a Venezuela anunciada por Donald Trump, no sentido de controlar os recursos petrolíferos do país.

"O que vejo, por enquanto, são os EUA enviando uma mensagem clara a Pequim e a Moscou, no sentido de que a América Latina é uma região historicamente influenciada pelos EUA. E, mais do que isso, no sentido de prevalecer cada vez mais a lei do mais forte", acrescentou Menon.

Para Bruno Rocha, é preocupante ver uma superpotência governada pela extrema direita invadir um país soberano na América Latina.

"Isso representa ameaça a todos os demais países. Seja por uma interferência direta militar, como na Venezuela; seja por uma ameaça de prêmio financeiro, como na eleição legislativa da Argentina; ou seja por uma operação de fraude, como em Honduras".

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Publicado em 5 de janeiro de 2026 às 13:10

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