Bloqueio no Will Bank deixa milhões sem acesso ao dinheiro
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📅 26/02/2026

Bloqueio no Will Bank deixa milhões sem acesso ao dinheiro

A liquidação do banco digital travou saldos de clientes, muitos de baixa renda, e não há prazo definido para a devolução. Apenas quem tinha até R$ 1 mil recebeu adiantamento do FGC.

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Ronny Teles

Ronny Teles

Combatente pela democracia

O efeito cascata da liquidação extrajudicial do Banco Master atingiu em cheio o Will Bank, banco digital do mesmo grupo, e deixou milhões de clientes sem acesso ao próprio dinheiro.

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O Will Bank dizia ter cerca de 12 milhões de clientes, 60% deles no Nordeste, em sua maioria em cidades pequenas.

Com a liquidação, saldos foram bloqueados e não há data definida para o reembolso, afetando especialmente quem dependia do valor para despesas básicas.

O reembolso seguirá dois caminhos. Investidores em CDBs e letras de crédito do Will têm cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) até R$ 250 mil por instituição.

Já quem usava as contas de pagamento não conta com o FGC, mas, por lei, o dinheiro fica separado do patrimônio da empresa e deve ser devolvido integralmente.

Essa devolução, porém, só começa após o liquidante nomeado pelo Banco Central concluir a lista oficial de credores, etapa sem prazo divulgado.

Para reduzir a espera, houve antecipação de até R$ 1 mil por pessoa, alcançando milhões de clientes. Quem tinha valores maiores ou investiu via corretoras ficou de fora e segue aguardando.

Casos de famílias inteiras foram afetados. O servidor público Felipe Cândido, 50, viu a renda cair após acompanhar a esposa no tratamento contra câncer de mama; ela morreu no início do ano. "Eu sofri um combo bem azarado. Foi uma coisa muito triste", disse.

Em janeiro, ele depositou cerca de R$ 6 mil no Will Bank para cobrir a mudança de casa e a matrícula da filha. Quatro dias depois, veio a liquidação e o bloqueio.

Como o valor excede R$ 1 mil, ele ficou fora da antecipação do FGC e continuou sem acesso ao dinheiro. A conta de luz foi cortada, e a família passou a depender de vizinhos.

"Estou com uma extensão ligada na casa da vizinha. Daqui sai energia para a geladeira, a televisão e o ventilador das crianças. Não tem como ficar sem luz", contou.

"Daqui a pouco não vamos conseguir comprar comida. O dinheiro está todo sequestrado."

Deise Juliana, 50, desempregada, guardava no Will o que ganhava vendendo salgados e sacolés. "Era pouco o que eu tinha na conta, mas era meu", disse.

"Para minha surpresa, quando abri o aplicativo, apareceu a mensagem de liquidação", relatou. Ela conseguiu o adiantamento por ter menos de R$ 1 mil a receber.

Desde novembro de 2025, o Will Bank estava sob Regime Especial de Administração Temporária (Raet), medida usada para tentar viabilizar uma venda após a liquidação do Master.

Como a venda não saiu e as dívidas aumentaram, o Banco Central concluiu que não havia alternativa viável, tornando a liquidação inevitável.

O FGC estima desembolsar cerca de R$ 6,3 bilhões com a liquidação do Will. Os pagamentos devem começar entre 30 e 60 dias após o envio da lista de credores pelo liquidante.

O processo é digital: pessoas físicas solicitam pelo aplicativo do FGC; empresas, pelo site. Após conferência, o crédito cai em até 48 horas úteis.

Quem tinha dinheiro na conta de pagamento do Will também espera a lista. A instituição não tinha licença bancária tradicional e oferecia contas de pagamento.

Conta corrente bancária é a de banco tradicional, com depósitos geralmente cobertos pelo FGC. Conta de pagamento é típica de fintechs: movimenta dinheiro e faz PIX, mas não tem cobertura do FGC.

Sem FGC, o ressarcimento não segue o mesmo rito de depósitos bancários. Ainda assim, a lei manda separar esses saldos do patrimônio da instituição, fora da fila comum de credores.

Na prática, o dinheiro deve ser devolvido diretamente ao cliente após a identificação e conferência dos saldos pela administração da liquidação, sem calendário pré-definido.

"Em tese, esses recursos devem ser devolvidos diretamente ao cliente, fora da disputa entre credores. Porém, o tempo para a restituição depende dos procedimentos da liquidação e da conferência dos saldos", afirma a advogada Danielle Peniche.

O liquidante vai divulgar datas e orientações pelos canais oficiais do Will Bank, mas antes precisa fazer um raio-x da instituição.

"Identificar ativos, obrigações, recebíveis e passivos, além de definir o que entra na ordem de pagamentos", explica o advogado Renato Scardoa.

"A devolução depende da conclusão desse trabalho inicial de verificação. Não existe um prazo fechado em lei, mas, em situações organizadas, algo entre 40 e 60 dias costuma ser considerado razoável", completa Scardoa.

O prazo pode variar conforme o tamanho da instituição, a qualidade dos registros e eventuais inconsistências ou suspeitas de irregularidades.

Nesse período, o app do Will costuma ficar só para consulta, sem permitir movimentações. Em geral, o liquidante pede que o cliente informe outra conta para receber o valor quando for liberado.

Enquanto isso, contratos seguem valendo: parcelas de empréstimos e faturas de cartão continuam devidas. As chaves PIX do Will foram desativadas.

A liquidação não apaga dívidas já lançadas em fatura. Elas podem ser cobradas com juros e levar à negativação do CPF em caso de atraso.

Advogados orientam guardar extratos, comprovantes de saldo e registros das movimentações na data da liquidação e acompanhar comunicados do Banco Central, do liquidante e do FGC.

Em situações de urgência, como falta de recursos para itens básicos, é possível acionar a Justiça. Segundo Scardoa, ações individuais podem ajudar quando há demora excessiva ou falta de resposta da administração da liquidação.

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Publicado em 26 de fevereiro de 2026 às 12:15

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