A disputa interna no PL de Santa Catarina, que levou a deputada federal Caroline De Toni (PL-SC) a comunicar que deixará a sigla, reacendeu a intriga no clã Bolsonaro entre Carlos Bolsonaro (PL-RJ), ungido pelo pai como candidato "catarinense" ao Senado, e a madrasta, Michelle Bolsonaro (PL).
Depois de Caroline De Toni ser rifada da corrida ao Senado por Santa Catarina, Michelle foi às redes e publicou fotos ao lado da deputada: "estaremos com você Caroline De Toni", escreveu a ex-primeira-dama.
A mensagem irritou Carlos, que resgatou uma postagem de 16 de janeiro e retomou os ataques à madrasta. "Insisto: o objetivo não é medir forças com os filhos de Jair Bolsonaro, mas com ele mesmo", disse, emendando: "de tão surreal, eu não acreditaria se não conhecesse".
Na sequência, Carlos insinuou que Michelle estaria se movendo por dinheiro dentro da disputa familiar: "Hoje, eu já creio que há outras verdinhas coincidências no tabuleiro".
Os ataques ocorreram no contexto das brigas pelo controle político no entorno do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que transformou a cela na Papudinha em um bunker eleitoral.
Sem espaço no PL após a decisão da cúpula, Caroline De Toni deve formalizar a saída da legenda. O destino provável é o Novo, enquanto outras siglas também sondam a parlamentar.
A deputada tentava há meses viabilizar a pré-candidatura ao Senado, mas, em reunião com o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, foi informada de que não teria espaço.
O PL priorizou uma aliança com o PP em Santa Catarina e deve compor chapa com Carlos Bolsonaro, que transferiu o domicílio eleitoral do Rio de Janeiro para São José (SC) visando o Senado, e com o senador Esperidião Amin (PP).
Valdemar justificou que o acerto com o presidente do PP, Ciro Nogueira, envolveu apoio dos Progressistas à candidatura do deputado Luciano Zucco (PL-RS) ao governo do Rio Grande do Sul, após o rompimento do PP gaúcho com o governador Eduardo Leite (PSD).
Também teria sido oferecida a Caroline De Toni uma vaga de vice na chapa do governador Jorginho Mello ou a liderança do PL na Câmara, proposta recusada pela deputada.
O atrito entre Michelle e Carlos vem desde 2018 e se aprofundou quando ela passou a criticar as lives presidenciais coordenadas por Carlos. "LIVE QUE NÃO TEM ACESSIBILIDADE @jairmessiasbolsonaro não merece curtida. Respeito pela comunidade surda", publicou à época.
Meses depois, com o cerco do STF ao chamado gabinete do ódio, Jair Bolsonaro levou o filho para morar no Alvorada por cerca de seis meses. O temor de prisão levou Carlos para dentro do Palácio, contrariando Michelle e ampliando o desgaste.
Na campanha, Jair Bolsonaro costurou uma trégua familiar para evitar que uma crise implodisse o discurso pró-família usado para segurar o eleitorado evangélico.
As rusgas, porém, continuaram. Nas redes, Michelle alfinetou Carlos ao "esquecer" dele em uma foto do Dia dos Pais, e a resistência inicial da ex-primeira-dama em entrar na campanha irritou o 02. Na reta final, Carlos ganhou protagonismo, enquanto Michelle montou agenda própria.
Após a derrota de 30 de outubro de 2022, Carlos parou de seguir Michelle. Ela então negou boatos sobre a relação com Jair e escreveu: "Esclarecendo a matéria de hoje sobre o meu marido ter deixado de me seguir em seu Instagram, conforme o Jair explicou em várias "lives" que administra essa rede não é ele. Eu e meu esposo seguimos firmes, unidos e crendo em Deus e crendo no melhor para o Brasil. Estaremos sempre juntos, nos amando "na alegria e na tristeza…" Que Deus abençoe a nossa amada Nação!"
Em 7 de março, na Avenida Paulista, Michelle encenou uma aproximação com os filhos de Jair. No palanque, ela chamou o trio de "três meninos do meu marido", pedindo para Flávio, Carlos e Jair Renan abraçarem o pai.
"Faltando um", disse Michelle. "Faltando o Eduardo, faltando nosso Duda, que está longe, renunciando a sua vida, a vida de seus filhos pequenininhos que estavam na escola. Nós que somos pais, nós sabemos o quanto isso é importante", completou, recebendo um afago de Carlos. O vídeo foi publicado no perfil de Carlos, que marcou apenas Eduardo.
O totem da "família tradicional" do bolsonarismo não resiste à realidade do próprio clã, em guerra aberta. Em entrevista a Alexandre Garcia, Michelle foi direta sobre Carlos: "A gente não se fala... ele é uma pessoa que eu não quero conviver".
As brigas entre irmãos também são antigas. Em 2017, uma troca de mensagens flagrada mostrou Jair Bolsonaro dizendo a Eduardo: "Papel de filho da puta que você está fazendo comigo" e "Tens moral para falar do Renan? Irresponsável".
Nas contradições familiares, Bolsonaro admitiu à Playboy em 2000, ao falar sobre aborto, que "tem de ser uma decisão do casal". Questionado se já havia passado por isso, apontou para Jair Renan, então com um ano e meio: "Já. Passei para a companheira. E a decisão dela foi manter. Está ali, ó". Depois, exigiu exame de DNA e rebatizou o filho com seu nome.
Já no Planalto, as desavenças envolveram Jair Renan e Michelle. Um ex-funcionário relatou que "Jair Renan, que estava na adolescência, infernizava a mulher dentro de casa" e que "quando o Renan estava com 16 anos o pai dele alugou um apartamento lá do lado do condomínio para ele morar sozinho". Segundo ele, "Ele [Jair Bolsonaro] alugou um apartamento lá e botou o garoto lá, pra tirar o Renan de dentro de casa porque o inferno era tanto".
A tensão chegou à adega do Alvorada: após Michelle mandar trancar o local por causa de furtos de bebidas, Bolsonaro teria arrombado a porta para presentear um visitante.
A disputa também se estendeu às redes. Em indireta a Ana Cristina Valle, mãe de Jair Renan, Michelle escreveu: "Em Brasília, o meu irmão Eduardo Torres é o nosso único candidato ao cargo de deputado distrital. Não existe apoio a nenhum outro candidato. Fica o alerta para 'os alpinistas' que estão tentando subir na vida, usando o nosso sobrenome".
Jair Renan reagiu: "Minha mãe Cristina Bolsonaro teve uma história de vida com o atual Presidente Jair Messias Bolsonaro, onde foram casados por 16 anos, e sou fruto desta relação; onde houve parceria e muito amor. Portanto, não podemos negar o fato de que minha mãe teve sua contribuição com a chegada do meu pai à Presidência da República". E completou: "Por esse motivo, minha mãe tem direito de usar o sobrenome do meu pai, não por vaidade, mas por fato e direito".
Depois dessa treta, Jair Renan virou alvo de operação da Polícia Federal. A reação de Michelle nas redes resumiu o clima na família: "Senhor, obrigada por mais este dia".
A nova ofensiva de Carlos contra Michelle aprofunda a crise no bolsonarismo e escancara o vale-tudo por espaços eleitorais. Os brasileiros esperam que Bolsonaro seja punido por seus crimes, e os desentendimentos públicos do clã só ampliam a cobrança por responsabilização.
