O deputado estadual Marcelo Aguiar, filiado ao PL, partido do ex-presidente Jair Bolsonaro, estava embriagado e importunava mulheres antes de uma confusão que terminou com um tiro de arma de fogo, na madrugada desta segunda-feira (19), dentro da casa noturna Santo Cupido, no Itaim Bibi, na Zona Sul de São Paulo, segundo testemunhas ouvidas pelas autoridades policiais.

O estampido provocou momentos de tensão e correria no estabelecimento. Ninguém ficou ferido. O político acabou detido, algemado e conduzido de viatura pela Polícia Militar até a delegacia, onde chorou, de acordo com o relato de agentes e presentes. Por possuir imunidade parlamentar e pelo fato de o delito de disparo de arma de fogo ser afiançável perante a lei, ele foi liberado para responder em liberdade, embora a sociedade cobre rigor e punição contra condutas irresponsáveis e violentas.
Uma testemunha presencial relatou que estava próxima ao deputado instantes antes da confusão e afirmou tê-lo visto "absurdamente bêbado", "xavecando", "pegando na mão", "encostando" e "tentando pegar no cabelo" de clientes que aproveitavam a noite no camarote do local.
"Ele estava do meu lado, literalmente, mas muito, muito, muito, muito bêbado, e estava segurando uma taça de vinho. O que me chamou a atenção é porque a taça de vinho estava balançando e deixando cair vinho. Acabou caindo vinho em mim", declarou a testemunha, que optou por não ter seu nome divulgado.
Segundo os relatos, o político insistia em abordagens invasivas contra frequentadoras que demonstravam claro incômodo com a situação. Marcelo Aguiar tem 53 anos, é casado e pai de dois filhos, mas nenhum familiar o acompanhava na ocasião.
"E ele estava tentando pegar na mão de duas meninas. Aí ele tentava falar com uma menina, a menina não estava gostando e aí, ela meio que pediu socorro para a mesa que ela estava de amigos", detalhou a pessoa ouvida. "Um dos amigos dela falou pra ele parar de ficar importunando."
As pessoas que estavam no local apontaram que o deputado insistia no contato físico. Em dado momento, uma jovem precisou intervir e abraçar a amiga para evitar novas tentativas de aproximação por parte do parlamentar: "Ele não parava de irritar as meninas."
O boletim elaborado pela Polícia Militar confirma que o entrevero teve início logo após o deputado ter cantado uma mulher que estava acompanhada. Dois amigos dela foram tirar satisfações diretamente com o membro da bancada bolsonarista. Os policiais também anotaram formalmente que o homem apresentava visíveis sinais de embriaguez.
A advogada e doutoranda em Direito pela PUC-SP Fernanda Perregil explicou que o episódio pode configurar delito penal grave. "O relato de que o indivíduo estaria 'xavecando' e segurando a mão de mulheres sem consentimento indica uma conduta que, a depender das circunstâncias, pode caracterizar assédio sexual ou importunação sexual, exigindo análise específica de cada hipótese", apontou a jurista.
A testemunha narrou que percebeu a gravidade do cenário quando frequentadores desceram para tirar satisfações: "E aí desceram três caras ou dois caras isso eu não tenho certeza né mas desceram pra falar com ele e na hora que foram falar com ele eu vi que ia dar uma confusão e me afastei."
A surpresa entre os clientes foi generalizada pela presença do armamento no camarote. "Porque eu falei, meu, o cara tá muito bêbado mas jamais imaginei que ia tá armado", lamentou a testemunha.
Na sequência, o parlamentar foi ao chão e o tiro aconteceu: "E eu vi eles indo pra cima, o cara caindo no chão e ele caiu tipo literalmente de testa no chão e enquanto ele caía veio o disparo. Minha amiga gritou 'corre que foi tiro'."
O relato prosseguiu destacando a rápida escalada de violência: "chegaram dois caras mais fortes. Eu não sei se ele caiu de tensão ou bateram nele. Na hora que ele caiu no chão ocorreu o disparo."
"A gente não sabia de onde partiu o tiro. Senti cheiro de pólvora. Achei que ele estivesse morto", complementou a testemunha sobre a aflição sentida no ambiente fechado.
"Eu fiquei em choque no local. Esse momento eu não olhei! Só vi os caras indo pra cima dele, ouvi o disparo e ele caído no chão!", disse. "Eu olhei ele no chão, parecia morto, mas ele estava muito bêbado, por isso que ele estava caído. Eu imaginei que alguém tivesse atirado nele."
A principal linha apurada pelos investigadores aponta que o tiro foi deflagrado de forma acidental durante a queda. A Polícia Civil aguarda laudos periciais para concluir a dinâmica do ocorrido e examinar a pistola Glock calibre .380 do político, apreendida durante a ação.

Após o estrondo, o pânico tomou conta do público, que encontrou dificuldades para deixar o local. "Não deixaram a gente sair da balada. A princípio eles queriam segurar porque, querendo ou não, a gente já tinha consumido", revelou uma das frequentadoras.
"Eu só queria sair dali", declarou, lembrando o trauma familiar decorrente de arma de fogo. Ela acrescentou: "Quando eles abriram a porta pra gente sair, saíram umas 30 pessoas. Mas não foi legal pela casa também. Tivemos que implorar para sair de lá. 'Não liberavam a porta por causa da comanda! Ai uns caras ameaçaram quebrar tudo! E aí sim liberaram!'"
Frequentadores criticaram duramente a conduta de entrar com revólver no espaço: "Jamais iria imaginar que um cara iria entrar armado numa balada. Só sei que o cara estava com a arma dentro da balada e muito bêbado."
"Estou vendo as reportagens e eu acredito que houve muita irresponsabilidade dele estar armado em uma balada e bêbado! Mas não acredito que ele tinha condições de sacar a arma, porque ele estava absurdamente bebado!", acrescentou outra testemunha.
Segundo os registros, Marcelo Aguiar apresentou sua identificação de autoridade na recepção, foi revistado, mas escondeu dos seguranças que carregava consigo uma arma de fogo municiada.
Em depoimento prestado à polícia, o deputado tentou justificar seu estado alegando reação a remédios: "Que se recorda de ter se sentido mal em alguns momentos durante a sua estadia no estabelecimento, o que suspeita ser decorrente do uso de medicamentos que havia ingerido previamente."
Ele confirmou ter escutado o estampido: "Que, nessa ocasião, ouviu o estampido de um disparo de arma de fogo." E alegou: "Que, caso tenha ocorrido algum disparo proveniente de sua arma, este se deu de maneira acidental."
Marcelo Aguiar integra a bancada religiosa da Alesp pelo PL. Cantor evangélico, ele ganhou visibilidade no conjunto Renascer Praise. Ele foi vereador da capital paulista em 2008 e deputado federal em 2010, não conseguindo se reeleger para Brasília nas eleições seguintes.
Em nota oficial, a defesa sustentou que o parlamentar esteve sob efeito de forte medicação que teria causado efeitos adversos, refutou que ele tenha sido preso e disse que o caso será esclarecido na Justiça. Questionada sobre a não realização do exame do bafômetro no deputado detido, uma testemunha ironizou a necessidade do teste: "Não precisava nem. Era visível [que estava bêbado]."






