Economia verde dispara; governo Lula mira 8 milhões de empregos
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📅 02/12/2025

Economia verde dispara; governo Lula mira 8 milhões de empregos

Com a COP30 e novas regras climáticas, o Brasil acelera a criação de vagas "verdes" e pode chegar a 8 milhões de empregos formais, mas o país enfrenta risco de apagão de mão de obra qualificada.

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Ronny Teles

Ronny Teles

Combatente pela democracia

De janeiro de 2024 a outubro de 2025, foram abertas aproximadamente 82,9 mil vagas com algum atributo ambiental na Gupy, plataforma brasileira de RH. A categoria "energia, serviços públicos essenciais e mobilidade elétrica" liderou com 44,78 mil postos.

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Em seguida vieram "meio ambiente" (mais de 12 mil), sustentabilidade corporativa (9,1 mil) e florestal (7,7 mil). A busca por contratações para projetos temporários e para empresas mais engajadas na agenda ambiental e do clima explica o movimento, segundo Guilherme Dias, cofundador da Gupy.

A Gupy avaliou títulos, descrições e pré-requisitos de vagas com atributos ligados à sustentabilidade. Embora os números ainda pareçam modestos, indicam crescimento gradual entre as empresas que utilizam serviços de recrutamento, afirma Dias.

O segmento de energia, utilities e mobilidade elétrica "cresceu mais de 10% nesses quase dois anos, sinalizando um movimento de abertura de fábricas do setores no Brasil. Esse valor é relevante e mostra um crescimento incremental", complementa.

Grandes empresas de energia, agronegócio, tecnologia e indústrias extrativas já demandam essas especializações. Salários podem ser de 20% a 30% maiores do que os de postos operacionais nas mesmas companhias, segundo Anderson Schemberg, da Fesa Group.

"As vagas verdes têm muita especificidade e variam bastante conforme o mercado. Neste ano, no agronegócio, houve aumento na busca por especialistas e coordenadores de ESG, por exemplo. A principal demanda dessas posições era por profissionais com experiência em agricultura regenerativa, carbono e reflorestamento de áreas degradadas", explica.

Segundo Dias, a procura por trabalhadores na economia verde cresceu com a COP30, realizada em novembro, em Belém, e seguirá em alta, com transição energética e adaptação ganhando centralidade.

Durante a COP, o governo Lula lançou a plataforma Nova Economia para estimular vagas de trabalho relacionadas ao ambiente e declarou potencial para 8 milhões de vagas formais nos próximos anos. A OIT também abriu debates sobre empregos verdes e transição justa e prevê 15 milhões de novos "empregos verdes" nos próximos cinco anos, metade deles no Brasil.

Para a OIT, as Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) devem conectar ambição climática e avanço de economias de baixo carbono, preservando empregos verdes existentes e criando novas vagas. "Negócios comprometidos com práticas socioambientais - independentemente do porte ou setor - atuam como motores de inovação e crescimento econômico, ampliam a oferta de empregos verdes e sustentam a transição para economias mais sustentáveis e inclusivas", disse a OIT, em comunicado.

Os novos empregos exigem "green skills", que vão além da técnica e incluem letramento e criticidade ambiental, ressalta Dias. Empresas já criam funções de mensuração, certificação, monitoramento de carbono e governança climática, impulsionadas pelo marco do mercado de carbono aprovado em 2024 e por iniciativas estaduais, como o cap-and-trade do Rio de Janeiro.

O Brasil registrou recorde de expansão de energia solar e eólica no ano passado; juntas, elas respondem por mais de 1 milhão de empregos diretos e indiretos, segundo ABSolar e Abeeólica.

Grupos do agronegócio e startups de redução de gases de efeito estufa puxam a demanda por profissionais para relatórios e monitoramento de emissões, com conhecimento técnico e habilidade de "navegar no universo da sustentabilidade", afirma Schemberg.

Nos biocombustíveis, há nove plantas instaladas, 16 em construção e outras 16 anunciadas. Até 2027, a demanda por especialistas em energia limpa e cadeia agrícola deve aumentar de forma relevante, avalia Schemberg.

No nível especialista, cresce a procura por profissionais de automação e instrumentação no setor de açúcar e álcool. As novas plantas são altamente automatizadas, exigindo manutenção de instrumentação e softwares de controle; empresas recorrem a consultorias para encontrar e capacitar talentos, especialmente por estarem em regiões afastadas, onde se paga mais para atrair mão de obra.

Nos bastidores, processos regulatórios exigem adaptação: treinar equipes ou buscar profissionais já prontos no mercado será inevitável para o setor produtivo.

"Existe uma pressão regulatória na transição climática e energética, fazendo com que empresas precisem de trabalhadores qualificados. Além disso, há clientes e investidores cobrando por boas práticas na composição da força de trabalho, adequando-se ao compliance ambiental. E isso não é uma moda ou um boom que vai acabar", argumenta Dias.

As antigas "vagas verdes" deixaram de ser nicho: diferentes cargos agora exigem pensamento crítico sobre sustentabilidade. A tendência é de posições estáveis e com planos de carreira mais robustos.

Pesquisa da ABDI e da Nexus mostra que 75% dos brasileiros acreditam que a transição para uma economia sustentável vai gerar novos postos de trabalho; 54% esperam muitos empregos e 21% poucos. Apenas 16% veem perdas, sobretudo no Nordeste.

Quanto à qualificação, 54% confiam que o país tem mão de obra preparada para os novos empregos verdes, enquanto 42% discordam. No Norte e Centro-Oeste, 63% mostram otimismo, regiões com forte potencial em agricultura e energia.

O gargalo da requalificação é o principal temor. Já há descompasso entre oferta e demanda em instalação de painéis fotovoltaicos, gestão de resíduos, certificação ambiental e engenharia de eficiência energética.

"Há um grande desafio de contratação, especialmente em áreas remotas. A nova geração tem cada vez menos disposição para morar longe dos centros urbanos. Nas posições de entrada, o mercado concorre fortemente com a informalidade", ressalta Schemberg. "As empresas têm buscado alternativas para captar talentos: há clientes indo até a porta do Exército para recrutar jovens que estão dando baixa", conta.

As discussões da COP30 alertam: sem alinhar educação básica, ensino técnico e políticas industriais, o Brasil pode desperdiçar o potencial da economia verde. A agenda do governo Lula, com foco em transição justa e criação de empregos, busca justamente acelerar esse alinhamento.

Enquanto a oferta tende a crescer, o mundo caminha para um apagão de mão de obra qualificada na economia verde. Dados indicam que o déficit global de habilidades ligadas à descarbonização pode aumentar rapidamente até 2050 se não houver forte aceleração na formação.

O hiato entre oferta e demanda já começa nesta década: 31% em 2030, 61% em 2040 e ainda maior em 2050. As lacunas se concentram em automação, eficiência operacional e rastreabilidade — eixos que guiam a indústria rumo à economia "desfosilizada".

A transição para processos de baixo carbono requer domínio de cinco conjuntos de habilidades: automação e controle industrial; eletrificação e eletrônica de potência; eficiência energética, térmica e hídrica; dados digitais e cibersegurança; conformidade e rastreabilidade. No Brasil, incluem-se normas como RenovaBio e Corsia (aviação internacional).

Estudo lançado em novembro, em parceria com a Systemiq, destaca que o Brasil pode ampliar a mão de obra em bioenergia em até 760 mil empregos até 2030, aumento de 63% sobre o nível atual.

Segundo a Irena, o país já concentra cerca de 26% da força de trabalho global da bioenergia, com 1,16 milhão de trabalhadores distribuídos entre produção agrícola, plantas industriais e logística.

"Os dados indicam que, cada novo emprego direto na cadeia da bioenergia pode gerar até três postos indiretos em setores como transporte e manutenção. Estamos falando de um efeito multiplicador que impulsiona inovação, renda e desenvolvimento regional", salienta Rafael Segrera, presidente da Schneider Electric para a América do Sul e líder do grupo de trabalho para Empregos e Habilidades Verdes na SB COP30.

O levantamento reforça a bioenergia como vetor de descarbonização e coloca o Brasil em posição de liderança, exigindo coordenação de políticas públicas, investimento privado e modernização do ensino técnico.

O descompasso temporal é central: investimentos em energia limpa e modernização industrial avançam mais rápido do que a formação de talentos, alerta Segrera. Uma saída é adotar microcredenciais e treinamentos rápidos nas cadeias produtivas no curto prazo.

Programas aplicados diretamente em plantas industriais resultaram em redução de 19,52% no consumo de energia, economia de R$ 165 milhões e payback inferior a um mês, segundo o Senai — sinal claro de que qualificação acelera ganhos.

No médio prazo, academias internas e observatórios de habilidades podem antecipar tendências. Mantido o ritmo atual, a transição energética esbarrará menos em falta de investimento e mais na ausência de profissionais capazes de conduzi-la.

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Publicado em 2 de dezembro de 2025 às 13:06

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