Cooptado pela ultradireita aos 12 anos e ex-coordenador do PL Jovem em São Paulo, Bruno Fonseca afirma que mudou sua posição política após entrar na universidade, conhecer outras realidades e estudar programas sociais. Aos 21 anos, ele declarou: "eu votei no Bolsonaro em 2022 e este ano eu vou votar no Lula".
Fonseca, que atualmente estuda Direito e vive em Curitiba, militou pelas candidaturas de Jair Bolsonaro em 2018 e 2022. Agora, ele defende que o diálogo pode afastar outros jovens do bolsonarismo e ampliar o apoio à eleição de Lula para um quarto mandato.
"Com certeza é pelo diálogo. O diálogo me tirou do bolsonarismo e eu recebo muitas mensagens, todos os dias, de pessoas que me seguiam na direita e vieram juntos comigo. Então, é possível. Até parece difícil, mas acontece. É só a gente não desistir. Eu acho que de um em um, com o porteiro do nosso prédio, no carro de aplicativo em que a gente entrar, conversar com o nosso patrão, conversar no grupo de WhatsApp. A gente consegue chegar lá", diz Fonseca.

Ao explicar como deixou a estrutura da ultradireita, o estudante resumiu sua experiência em uma palavra: "estudei". Segundo ele, a convivência universitária permitiu conhecer pessoas beneficiadas por políticas públicas como o ProUni e o Fies.
"Eu estudei. A verdade é curta, mas é essa: eu estudei. Entrei na universidade e recebo comentários até hoje: "Ah, entrou na federal, não sei o quê…". Não, não estudo numa universidade federal, estudo numa universidade particular. Só que na universidade você tem contato com outras realidades, né? Então, você tem contato com bolsista, com pessoas que estão ali por conta de programa social, você entende o que é um programa social aplicado na prática. Você entende que se não existisse aquele programa social, aquela pessoa não estaria a estudar e muito possivelmente a menina da minha sala que hoje faz Direito comigo por conta do ProUni, por conta do FIES, se não tivesse o programa social provavelmente estaria a prostituir-se na rua. E a verdade é essa. Então, quando você começa a ter consciência deste tipo de coisa, de que a existência daquela pessoa é graças a um programa social, se tiver o mínimo de humanidade no seu coração, você não consegue criticar aquele programa", diz.
Fonseca considera fundamental ouvir jovens que foram atraídos pela ultradireita ou que ainda estão em dúvida sobre a eleição. Para ele, paciência, acesso à informação e contato com diferentes realidades ajudam a enfrentar discursos bolsonaristas contra programas sociais.
"Se hoje eu consegui libertar-me daquela bolha,é porque um dia alguém teve paciência de sentar comigo e explicar-me cada dúvida que eu tinha, cada dúvida que eu ainda tenho, entender a importância dos programas sociais. Porque o que mais se ouve na direita é que programa social é coisa de vagabundo. […] É esse discurso que hoje eu combato. É o que eu falo: enquanto você não tem a consciência, enquanto você não tem a oportunidade de pegar num livro, de ler, de conhecer pessoas, está tudo bem propagares alguns discursos. Mas quando você estuda, quando você de fato se dá ao trabalho de pesquisar, de estudar, de conversar com pessoas e entende a realidade dessas pessoas, se continuar no bolsonarismo, você é mau-caráter. Então por isso, depois de estudar, é que não sou mais bolsonarista", afirma Bruno.
Na avaliação do estudante, a campanha deve concentrar esforços nos eleitores indecisos e, principalmente, nas mulheres. Ele considera difícil mudar a posição de bolsonaristas submetidos diariamente a conteúdos nas redes sociais e em grupos de WhatsApp, mas acredita ser possível dialogar com "pessoas que ainda podemflertar com os dois lados".
"E mais importante do que os indecisos são as mulheres. As mulheres vão definir estas eleições. E é fazer as mulheres entenderem que, se o Flávio Bolsonaro ganhar a eleição, elas não vão mais poder votar. E olhar para aquele moleque e falar assim: "se você votar no Flávio, a tua mãe não vota mais, a tua namorada não vota mais". É mostrar isso para estas pessoas, que o Flávio Bolsonaro representa o retrocesso e a retirada de todos os direitos que as pessoas conquistaram", diz.
Fonseca relata que seu ingresso na ultradireita começou aos 12 anos, depois que encontrou vídeos do Movimento Brasil Livre no YouTube. Na época, segundo ele, ainda não havia uma ruptura clara entre o MBL e o bolsonarismo.
"Eu era um jovem de 12 anos de idade que um dia vi um vídeo da galera do MBL na internet. Na época que o MBL representava a direita de forma muito forte, não tinha aquela ruptura entre bolsonaristas e MBL. E eu achei o vídeo legal, engraçado, e com 12 anos de idade, fui assistir a um debate lá na USP em que o Arthur do Val, do Mamãe Falei, e o Kim Kataguiri debatiam. E naquele momento, eu entendi que era aquilo que eu queria. Porque, pense: eu era um jovem de 12 anos de idade a ouvir respostas fáceis para problemas muito complexos. Então, eu digo que fui cooptado pelo bolsonarismo porque eu era um jovem que obviamente não tinha nem a capacidade de pensar além daquilo que a direita vendia pela minha pouca idade. E a direita vende respostas muito sedutoras. Foi nessa época que eu comecei a gostar de política, né, nas ocupações das escolas. O que eu falo: eu fui cooptado pelo bolsonarismolá naquela época de 2016 a 2017,porque a direita vende respostas muito fáceispara problemas muito complexos".
Depois disso, Fonseca participou das campanhas bolsonaristas de 2018 e 2022, filiou-se ao PL e tornou-se coordenador da ala jovem do partido em São Paulo e em 37 cidades da região metropolitana.
O ex-coordenador afirma que o partido mantém uma estrutura dedicada a atrair jovens, formar novos quadros e investir em nomes considerados promissores. Ele aponta Nikolas Ferreira, Lucas Pavanato e Eduarda Campopiano como lideranças com forte atuação nas redes sociais.
"Eduarda Campopiano, Lucas Pavanato, Nikolas Ferreira são cabeças pensantes que atuam pela cooptação de outros jovens", diz. "Eles começaram mais ou menos na mesma época, também cooptados pelo bolsonarismo, pelo Kim Kataguiri, pelo Kim Kataguiri, pelo Arthur do Val antigamente. Só que entenderam como o sistema funciona e são mestres da rede social, a verdade é essa", emenda.
Segundo Fonseca, o PL promove reuniões, palestras e cursos de comunicação para sua juventude, além de distribuir materiais com orientações sobre a produção de vídeos. Na avaliação dele, essa estratégia ajuda a explicar a chegada de jovens ligados ao bolsonarismo às câmaras legislativas.
"O fato de o PL investir verdadeiramente na sua juventude fez e faz com que outros jovens diariamente entrem naquela juventude. Então o PL faz reuniões com a juventude, dá palestras sobre comunicação, manda PDFs de como deves gravar um vídeo, dá curso disso. Então ele investe na comunicação da juventude porque sabe e entendeu muito cedo que seria ali que iria definir o resultado das urnas", conta.

