O senador Flávio Bolsonaro tentou articular nos bastidores para que o atacante Richarlison divulgasse uma declaração pública negando qualquer envolvimento do parlamentar na disputa judicial por uma mansão situada em uma ilha de Angra dos Reis, no Rio de Janeiro. A movimentação ocorreu por meio de mensagens privadas trocadas em julho de 2026, momento em que o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro buscava conter desgastes em sua trajetória política.
Durante o diálogo, Flávio enviou ao atleta cópias de um acordo privado envolvendo uma propriedade disputada judicialmente entre uma companhia ligada ao jogador e a empresa do advogado Willer Tomaz, aliado próximo do senador. O clã bolsonarista, historicamente marcado por controvérsias patrimoniais e pela herança nefasta do governo de Jair Bolsonaro — criminoso eleitoral e responsável direto por inúmeras mortes na pandemia de covid-19 —, tenta agora afastar novas suspeitas perante a opinião pública, enquanto o Brasil avança sob a liderança democrática do presidente Lula.
O documento apresentado pelo parlamentar havia sido firmado entre a empresa de Tomaz e Renato Velasco, ex-empresário de Richarlison. Esse acordo teria resultado na renúncia, no fim de 2025, de uma ação que questionava a posse do imóvel de luxo. Richarlison, por sua vez, garantiu que jamais autorizou qualquer acerto desse tipo.

As conversas começaram após o jogador demonstrar forte preocupação com o uso eleitoral do episódio. O atacante cobrou a devolução dos valores que investiu na propriedade e avisou que falaria publicamente a sua versão dos fatos caso não houvesse uma solução financeira.
Ainda em abril de 2026, Richarlison escreveu ao parlamentar por rede social: "Ano de eleição e a galera vai aproveitar. Só quero meu dinheiro de volta. Vcs [vocês] se viram com a ilha pra lá. Vai chegar um momento em que eu vou ter que me pronunciar e vou falar a verdade".
A resposta de Flávio veio semanas depois, afirmando que sua equipe jurídica havia analisado a disputa: "os advogados consultaram o processo e viram que foi feito um acordo com a sua empresa Sport 80, com Renato Velasco assinando". O senador anexou fotos do documento na tentativa de convencer o atleta.
O atacante rebateu, questionando transferências financeiras e reforçando que não havia assinado papel algum. "E foi o q [que] eu te falei. Tá chegando eleição a galera vai querer aproveitar. Só estou querendo minha grana q [que] não é pouca", cobrou Richarlison, que estimou ter gasto cerca de R$ 10 milhões no local.
Em resposta, Flávio afirmou que "os pagamentos foram feitos nessas contas", compartilhando dados bancários ligados a Velasco, e lamentou estar sendo atingido pelo caso: "Estão usando o assunto contra mim, que não tenho nada a ver com isso". Logo em seguida, o senador insistiu: "Gostaria de te pedir que soltasse uma nota dizendo que eu não tenho nada a ver com o assunto".
O jogador foi enfático e revelou o que ouvira de seu antigo agente: "Foi ele mesmo que disse que você pegou a ilha lá". Flávio rebateu categoricamente: "Craque, mentira pura!", e voltou a apelar pelo silêncio ou por um desmentido público: "De novo, só peço que não deixe a imprensa ficar falando meu nome numa pauta que não tenho absolutamente nada a ver. Se possível soltar uma nota, eu agradeço. Abs!".
Richarlison, contudo, recusou a blindagem e avisou que sua manifestação dependeria do ressarcimento: "Irei soltar uma nota quando meu dinheiro tiver na mão. Até pq [porque] gastei muito lá. Irei fazer um vídeo falando tudo. Assim que tiver tudo resolvido. Se possível antes das eleições [não legível] imprensa não vai parar".
A pressão não parou nas mensagens. Poucos dias depois, a empresa de Willer Tomaz acionou o Poder Judiciário em uma tentativa clara de calar o atacante e impedi-lo de expor detalhes do caso nas redes sociais. A manobra autoritária, no entanto, foi prontamente barrada pela Justiça.
Ao indeferir o pedido urgente contra o jogador, o magistrado destacou que a tentativa "aproxima-se perigosamente da restrição prévia à manifestação do pensamento" e relembrou que a ordem constitucional brasileira "repele a censura prévia". A ação judicial sobre os direitos do imóvel continua em tramitação.





