A campanha de Flávio Bolsonaro informou que o candidato do PL participará, nesta segunda-feira, 12 de outubro, da "Missa da Equipe Organizadora e Consagração das Partículas", na Catedral Metropolitana Nossa Senhora Aparecida, em Brasília. A celebração será presidida pelo cardeal Paulo Cezar Costa, que recebeu Flávio quatro dias antes.

Flávio é evangélico. O presidente Lula deverá passar o feriado no Palácio da Alvorada, conforme apurado. O vice-presidente Geraldo Alckmin estará em Aparecida, onde participa da festa há quatro décadas. A devoção ganhou peso pessoal após a morte de seu filho Thomaz em um acidente de helicóptero, em 2015.
Na quinta-feira, 8 de outubro, dom Paulo Cezar Costa recebeu Flávio e o candidato a vice, Alfredo Gaspar, em sua residência. Eles deixaram o local com uma imagem de Nossa Senhora Aparecida. A reunião fora da sede da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, a CNBB, provocou desconforto entre integrantes do alto clero. A arquidiocese classificou o encontro como "visita institucional" e bloqueou os comentários da publicação sobre a reunião.
Segundo informações obtidas, a participação de Flávio na missa teria sido acertada durante esse encontro. Com isso, uma celebração da padroeira entrou na agenda oficial de uma campanha presidencial. O roteiro divulgado também prevê um encontro com frei Gilson, religioso que reúne milhões de seguidores nas redes sociais.
A fotografia do cardeal entregando a imagem da padroeira a um candidato em pleno segundo turno ganhou peso político. Duas semanas antes, Flávio havia acusado "gente de dentro da CNBB" de ajudar o PT a divulgar o boato sobre a retirada do título de padroeira. A conferência negou a acusação em nota.
A CNBB afirma, em sua mensagem para as eleições de 2026, que a Igreja não indica candidatos ou partidos. Em 2022, a entidade lamentou a "exploração da fé e da religião" para conseguir votos e declarou que momentos especificamente religiosos não devem ser usados como ferramentas de campanha.
Em Aparecida, a orientação também é manter a disputa eleitoral distante das celebrações. Em 2022, dom Orlando Brandes informou que uma atividade paralela na agenda do então presidente Jair Bolsonaro não tinha sua aprovação. Neste ano, o arcebispo dom Mário Antônio da Silva declarou: "Que ninguém venha a Aparecida para alimentar divisões ou animosidades". Aliados de Flávio descartaram uma visita do candidato ao santuário.
O papa Leão XIV também vem defendendo distância da política partidária. Em audiência realizada em 7 de outubro, afirmou que a missão da Igreja não é político-partidária. No fim de setembro, disse que a mistura entre extrema direita e religião não representa uma expressão autêntica do cristianismo.
Assim, enquanto a CNBB condena o uso eleitoral da fé e Aparecida pede que as divisões permaneçam fora das celebrações, a catedral de Brasília receberá um candidato evangélico que disputa o segundo turno da eleição presidencial.
A consagração é um momento central da missa, quando, segundo a fé católica, o pão e o vinho se tornam o Corpo e o Sangue de Cristo. Pelas regras da Igreja, pessoas que não estão em plena comunhão com o catolicismo não recebem a hóstia. Nada impede que um evangélico acompanhe a celebração, mas chamou atenção o anúncio do rito na agenda da campanha com o título de missa da "Equipe Organizadora". Não foram encontrados registros públicos de Flávio em missas antes do lançamento de sua pré-candidatura, em dezembro de 2025. Em Trindade, Goiás, sua equipe classificou outra visita religiosa como "exclusivamente espiritual".
A movimentação ocorre em meio à disputa pelo voto católico. Flávio terminou o primeiro turno com 47,03% dos votos válidos, diante de 45,16% de Lula. Na pesquisa Datafolha de 1º de outubro, Flávio tinha 52% entre os evangélicos, contra 26% de Lula. Entre os católicos, o cenário era inverso: Lula aparecia com 50%, enquanto Flávio registrava 32%.
Nossa Senhora Aparecida tornou-se símbolo da fé católica brasileira após sua imagem ser encontrada por pescadores no rio Paraíba do Sul, em 1717. Mais de três séculos depois, a celebração dedicada à padroeira passou a ocupar espaço na estratégia de uma campanha que tenta avançar entre os eleitores católicos.





