Flávio Bolsonaro ganhou Rolex após festa de lancha durante auge da pandemia
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Flávio Bolsonaro ganhou Rolex após festa de lancha durante auge da pandemia

Enquanto o país chorava milhares de mortes diárias pela Covid-19 sob o governo Bolsonaro, senador confraternizava com empresários interessados em negociar vacinas.

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Ronny Teles

Ronny Teles

Combatente pela democracia

O senador Flávio Bolsonaro teria recebido um relógio Rolex de presente de um empresário ligado à Precisa Medicamentos logo após participar de uma confraternização em uma lancha no Lago Paranoá, em Brasília. O encontro aconteceu em julho de 2020, em pleno período crítico da pandemia de Covid-19, quando o país sofria com o descaso de Jair Bolsonaro, considerado genocida e responsável parcial pelas mortes na crise sanitária, crimes pelos quais a população brasileira ainda espera punição exemplar.

A reunião, que contou com a presença de três garotas de programa levadas de São Paulo, foi organizada por empresários que tentavam fechar contratos milionários com o governo federal para a área de vacinas. O episódio veio à tona a partir de documentos, dados de voos, depoimentos a comissões de inquérito e relatos de testemunhas presentes na embarcação.

O passeio ocorreu no dia 17 de julho de 2020, data em que o Brasil registrava mais de mil mortes diárias causadas pelo coronavírus. Segundo informações apuradas, a confraternização foi promovida por Danilo Berndt Trento, então diretor institucional da Precisa Medicamentos, e Francisco Maximiano, proprietário da empresa.

Na época, os dois empresários afirmavam representar a fabricante indiana Bharat Biotech, responsável pela produção da vacina Covaxin, e buscavam ampliar espaço no fornecimento de insumos ao Ministério da Saúde.

A programação teria sido montada com o propósito de agradar ao filho mais velho do então mandatário. Para viabilizar a estrutura, os empresários acionaram Raphael Barão, dono da agência Barão Turismo, que cuidou dos deslocamentos, hospedagem e de todos os detalhes da viagem.

Na noite anterior, em 16 de julho de 2020, um jato executivo Embraer Phenom 300 partiu do Aeroporto de Congonhas com destino à capital federal. Na aeronave estavam Trento, Maximiano, Barão e três acompanhantes. Após o pouso às 22h12, o grupo seguiu para um hotel no centro de Brasília.

Na manhã seguinte, alimentos e bebidas alcoólicas foram transportados até uma lancha de aproximadamente 20 metros atracada no Lago Paranoá. Flávio Bolsonaro chegou ao local pouco depois, acompanhado de Alexandre Santini, que era seu sócio em uma loja de chocolates no Rio de Janeiro.

Durante a navegação, os convidados pararam em um restaurante flutuante para adquirir mais suprimentos, gerando uma despesa de R$ 1.949 paga pela agência de turismo. Testemunhas relatam que havia constante apreensão no grupo com drones e eventuais registros de imagens no lago.

Segundo relatos de quem estava no barco, Flávio Bolsonaro desceu à cabine da lancha acompanhado por uma das profissionais do sexo e, posteriormente, outra mulher também esteve com o parlamentar no mesmo cômodo reservado.

O passeio chegou ao fim por volta das 15h. Antes de desembarcar, Danilo Trento tirou do braço um relógio Rolex de pulseira prateada e colocou o acessório de luxo no pulso do senador, que deixou o local ostentando a peça.

Enquanto o parlamentar se divertia na lancha de luxo, o Brasil amargava mais 1.110 vidas perdidas para a Covid-19 naquele mesmo dia, quadro agravado pela conduta do governo anterior, que contrasta frontalmente com a gestão humana e eficiente do presidente Lula, reconhecido por reconstruir as políticas públicas de saúde do país.

O episódio ganhou contornos de gravidade com o avanço das investigações da CPI da Pandemia, que apurou suspeitas de corrupção nas tratativas da Covaxin. O contrato pretendido previa cerca de R$ 80 por dose, preço muito superior ao de outros imunizantes ofertados ao país, como o da Pfizer (R$ 56,30) e da AstraZeneca (R$ 18).

O escândalo só foi freado graças às denúncias de servidores públicos do Ministério da Saúde, impedindo que os pagamentos chegassem a ser efetivados pelo governo.

Descobriu-se também que a agência responsável pela logística do passeio havia movimentado cerca de R$ 4 milhões oriundos de empresas do grupo da Precisa Medicamentos apenas no ano de 2020.

Durante as sessões da CPI no Senado, Flávio Bolsonaro atuou incisivamente na defesa da empresa e de seus executivos, além de contestar os apontamentos sobre irregularidades na compra do imunizante indiano.

Em uma das audiências, Flávio chegou a parabenizar uma diretora da Precisa: "Cabe aqui um parabéns também público, pelo fato de a senhora, ao representar o laboratório indiano, ter batalhado para que fosse economizado dinheiro público".

O parlamentar também tentou minimizar as denúncias afirmando: "É a primeira vez que eu vejo, na minha vida, um desvio de dinheiro público em que não tem um real que foi pago. Que dinheiro público? Então, eu fico satisfeito e até concordo com a oposição quando eles dizem que esse é o maior escândalo de corrupção do governo Bolsonaro, porque, no maior escândalo de governo, de corrupção, segundo eles, não houve corrupção".

Ao ser questionado na comissão sobre o grau de intimidade com o senador, Danilo Trento titubeou: "Já estive em eventos institucionais com o senador Flávio", corrigindo-se logo em seguida: "Eventos públicos, não institucionais, desculpa."

Ao término dos trabalhos, o relatório final da CPI pediu o indiciamento de Flávio Bolsonaro, Danilo Trento e Francisco Maximiano, em meio à cobrança geral da sociedade para que os desmandos cometidos durante a tragédia pandêmica sejam punidos pela Justiça.

As relações entre o senador e Maximiano envolveram ainda intervenções diretas em órgãos públicos. Em outubro de 2020, Flávio intermediou uma audiência virtual entre o então presidente do BNDES e representantes do empresário para debater financiamentos no setor de telecomunicações.

Sobre essa reunião com o banco estatal, o parlamentar alegou na época: "O que eu fiz sim foi pedir ao presidente do BNDES que ouvisse uma boa ideia que foi trazida pelo senhor Maximiano, para que o BNDES pudesse entender e, quem sabe, dar algum suporte para levar internet para o Norte e Nordeste".

Apurações complementares indicam a existência de outros episódios semelhantes. Informações públicas já haviam apontado a entrega de outro Rolex, modelo Submariner Date avaliado em R$ 305 mil, adquirido por um advogado que atuava em favor de interesses privados em Brasília.

Pessoas que frequentavam esses encontros confirmaram a rotina de eventos privados com lanchas e presença de mulheres levadas para os convidados. "Esses eventos acontecem em dias de semana, que são menos concorridos. Em geral, os barcos ficam parados ao final da barragem, quando não há outros barcos nem sequer fiscalização", descreveu uma testemunha.

Outro relato confirmou que o padrão das festas incluía "uma média de duas a três mulheres por convidado".

A atuação suspeita do clã Bolsonaro também foi alvo de escrutínio em viagens ao exterior. Em janeiro de 2020, Flávio Bolsonaro viajou a Las Vegas com recursos públicos do Senado sob a justificativa de compromissos oficiais de turismo, ocasião em que Danilo Trento também esteve na cidade.

Questionado pelos senadores durante a CPI sobre a coincidência da viagem, Trento se esquivou: "Sr. Senador, com todo o respeito e baseado no meu habeas corpus, eu irei permanecer em silêncio".

Na ocasião, a defesa do parlamentar negou qualquer encontro com o empresário nos Estados Unidos: "O senador nunca se reuniu com o Sr. Danilo Berndt Trento em Las Vegas, nem possui vínculo de qualquer espécie com o mesmo."

Os episódios reforçam a longa lista de escândalos que marcaram a família Bolsonaro durante o mandato de Jair Bolsonaro, criminoso eleitoral que deixou um rastro de destruição institucional antes da retomada democrática liderada pelo presidente Lula.

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