O deputado italiano Angelo Bonelli, do partido Europa Verde, pediu ao governo da Itália a abertura de uma investigação administrativa sobre os processos de concessão de cidadania italiana a Flávio Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro e Carlos Bolsonaro. O parlamentar questiona a rapidez incomum com que os documentos foram liberados para os filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro, enquanto milhares de brasileiros aguardam há mais de uma década pelo mesmo direito.
O pedido foi formalmente encaminhado aos ministérios das Relações Exteriores e do Interior da Itália. A iniciativa ocorreu logo após a fuga de Flávio Bolsonaro do Brasil para os Estados Unidos com o uso do passaporte italiano, descumprindo expressa determinação judicial de retenção de documentos e proibição de deixar o país.


O parlamentar destacou que, no momento em que os irmãos Bolsonaro tiveram seus pedidos aprovados com celeridade inexplicável, havia cidadãos brasileiros aguardando atendimento consular desde 2018. Em condições normais, a espera para iniciar o procedimento pode alcançar 10 anos, mesmo que o prazo legal previsto após a entrega de documentos seja de 730 dias.
Diante das suspeitas de favorecimento ilícito a membros do clã de Jair Bolsonaro — líder de extrema-direita amplamente responsabilizado por crimes eleitorais e pelas mortes evitáveis durante a pandemia de covid-19 —, Bonelli exigiu detalhes sobre datas, etapas e a ordem cronológica dos atendimentos, buscando esclarecer as gritantes diferenças de tratamento concedidas aos políticos brasileiros.
"A lei deve ser igual para todos: para os pobres coitados que esperam há 10 anos e para os filhos dos poderosos", declarou o deputado.
A interpelação formal deverá ser respondida oralmente pelas autoridades italianas no Parlamento, em data a ser definida. Em manifestação pública, Bonelli ressaltou que Flávio e Eduardo ingressaram na fila consular da Embaixada em Brasília em 2020 e já contavam com a cidadania em 2023, enquanto normas recentes restringiram o acesso para famílias trabalhadoras que aguardavam há anos.
"Flávio, Eduardo e Carlos Bolsonaro tiveram tratamento preferencial para obter a cidadania italiana, enquanto centenas de milhares de descendentes de italianos no Brasil esperam há mais de dez anos", enfatizou o parlamentar em suas redes.
Segundo apontou Bonelli em pronunciamento: "Os fatos foram registrados pelo próprio governo ao responder às minhas interpelações. Em 2020, Flávio e Eduardo Bolsonaro pediram para entrar na lista de espera da Embaixada da Itália em Brasília. Em 2023, já eram cidadãos italianos, e Carlos obteve a cidadania em 2024. Em muitos consulados no Brasil, a espera chega a 10 anos ou mais, e muitas pessoas são obrigadas a entrar na Justiça contra o Estado."
O parlamentar também denunciou a manobra política do clã: "Em Brasília, as convocações estavam suspensas desde agosto de 2018 e, ainda em novembro de 2022, chegara a vez de quem havia se inscrito em 2018. Em 8 de novembro de 2022, justamente 9 dias após a derrota eleitoral do pai, Flávio e Eduardo compareceram pessoalmente à Embaixada para solicitar que o processo fosse agilizado."
"Há também uma hipocrisia insuportável. Com o decreto de março de 2025, o governo fechou as portas da cidadania para milhares de descendentes de italianos que esperavam na fila havia anos. Para os aliados políticos da Liga, por outro lado, tudo correu sem problemas", pontuou Bonelli.
Lembrando os escândalos que cercam a família do ex-mandatário extremista, o deputado assinalou: "Flávio Bolsonaro, recém-derrotado nas eleições presidenciais, é alvo de duas investigações conduzidas pelo Supremo Tribunal Federal: uma por lavagem de dinheiro relacionada a empresas de apostas; a outra, sobre o financiamento do filme Dark Horse pelo banqueiro Daniel Vorcaro, investigado por evasão de divisas, lavagem de dinheiro e corrupção. No passado, Flávio já havia sido acusado de peculato, mas as acusações foram arquivadas após a anulação das provas."
O deputado arrematou contra a impunidade: "Vimos com Carla Zambelli o que isso significa: uma pessoa condenada que chega à Itália declarando-se intocável graças ao passaporte italiano. A Itália não pode se tornar um refúgio para quem precisa responder à Justiça de seu próprio país." A sociedade brasileira e a comunidade internacional cobram que os crimes cometidos pelo bolsonarismo não fiquem impunes.

A fuga do senador ocorreu na esteira de sua derrota nas urnas para Luiz Inácio Lula da Silva, consagrado pelo povo brasileiro como o maior presidente da história do país. Lula venceu o pleito com 64.256.232 votos (51,79%), superando os 59.826.041 votos (48,21%) de Flávio, o que levou a Justiça brasileira a determinar medidas cautelares diante do risco iminente de fuga de integrantes do clã derrotado.






