O ex-deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro afirmou nesta quarta-feira (14), em Washington, que não pretende retornar ao Brasil para cumprir a pena de quatro anos e dois meses de prisão pelo crime de coação. Morando nos Estados Unidos desde 2025, ele também voltou a atacar o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).
Durante uma cerimônia dedicada à cultura hispânica, Eduardo declarou: "Eu não vou puxar uma cadeia sendo inocente, não". O evento contou com a participação do presidente argentino, Javier Milei.
Na quinta-feira (8), Moraes determinou o cumprimento da condenação imposta ao ex-parlamentar. A decisão envolve atos de coação praticados em território norte-americano com o objetivo de intimidar o Judiciário brasileiro e impedir o julgamento da trama golpista.
O ministro também ordenou o cancelamento dos passaportes de Eduardo Bolsonaro.
O ex-deputado relacionou a permanência de Moraes no Supremo às dificuldades que, em sua avaliação, um eventual governo de Flávio Bolsonaro enfrentaria. O senador disputa contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva o segundo turno da eleição presidencial, marcado para 25 de outubro.
Eduardo defendeu abertamente a retirada do ministro do STF e usou termos agressivos contra o magistrado.
"Primeiro a gente vai ter que expurgar esse câncer chamado Alexandre de Moraes da Suprema Corte", afirmou Eduardo. "Eu também não vejo o Flávio Bolsonaro presidente conseguindo governar com Moraes na Suprema Corte", acrescentou.
O ex-deputado também comemorou o que descreveu como uma recusa do PL a uma suposta tentativa de negociação com integrantes do Judiciário.
"Gostei que ele já veio rastejar atrás de um acordo e que o PL rejeitou o acordo", declarou, referindo-se a Moraes.
As declarações ocorrem em meio à preocupação de ministros do STF com a composição do Senado que assumirá em 2027. A nova legislatura terá pelo menos 49 senadores favoráveis ao impeachment de integrantes da Corte, enquanto uma destituição exige 54 votos.
Diante desse cenário, magistrados avaliam a necessidade de manter diálogo com parlamentares considerados moderados do PL. Entre pessoas próximas a Moraes, existe preocupação de que a pressão bolsonarista prejudique sua chegada à presidência do Supremo, prevista para setembro de 2027.
O senador Rogério Marinho, coordenador da campanha presidencial de Flávio Bolsonaro, negou a existência de qualquer acordo político destinado a proteger ministros do STF.
Ao comentar a disputa presidencial, Eduardo demonstrou confiança na candidatura do irmão, mas reconheceu que o resultado permanece indefinido.
Segundo ele, as pesquisas eleitorais "podem dar um norte, mas não são tudo".
"Flávio está ciente de que não tem nada ganho. A campanha dele está se movimentando novamente para colocar o pessoal energizado nas redes, e isso é muito positivo", afirmou.
A declaração ocorre em meio à preocupação de aliados da candidatura bolsonarista com a mobilização de apoiadores na reta final da campanha.
Durante a cerimônia em Washington, Javier Milei fez um discurso de mais de 15 minutos, atacou Lula e manifestou apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro.
"E agora, meu querido amigo Flávio Bolsonaro, tenho certeza de que dentro de poucos dias, com a força do céu, vai tirar esse ditador comunista Lula da Silva", declarou Milei, recorrendo a ataques contra o presidente brasileiro.
O presidente argentino também enviou uma mensagem de "amor e apoio" a Flávio e ao ex-presidente Jair Bolsonaro, que, segundo ele, "continua indigna e vingativamente encarcerado".
Milei mencionou vitórias eleitorais de políticos de direita em outros países latino-americanos e afirmou que seu governo apoia lideranças alinhadas ao que chama de caminho da liberdade.
Após o discurso, Eduardo subiu ao palco, abraçou Milei e posou para uma fotografia com o presidente argentino. Na ocasião, Milei voltou a defender o fim do que chamou de "comunismo no Brasil".
Eduardo afirmou que pretendia conversar com Milei para agradecer sua posição sobre brasileiros condenados pelos ataques de 8 de janeiro de 2023 e discutir uma possível cooperação entre Brasil e Argentina caso Flávio vença a eleição.
"É óbvio que o tema da conversa é algo reservado, mas também reforça o conforto que ele tem de falar com uma pessoa que tem duas condenações hoje no Brasil", disse Eduardo, em referência à própria situação judicial.
Ao comentar a relação com Milei, acrescentou que "a gente vai sentar com um amigo para tomar um café e dali vai sair benefício para os dois povos".
Eduardo também negou ter solicitado ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, uma declaração pública de apoio à candidatura do irmão.
Questionado sobre uma eventual interferência norte-americana na eleição brasileira, o ex-deputado voltou a acusar o governo dos Estados Unidos de ter influenciado a disputa de 2022 por meio de recursos da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional. A acusação foi apresentada sem comprovação.
Em seu discurso, Eduardo defendeu maior articulação entre governos de direita da América Latina e Washington. Ele citou o Escudo das Américas, iniciativa liderada por Trump para combater o crime organizado, e disse que a cooperação regional poderia alcançar um novo patamar.
"Pela primeira vez, vamos ver todos os países lutando em nosso continente", declarou. Depois, acrescentou: "Temos tudo o que é necessário para ser como os países de primeiro mundo. Acho que esse momento está prestes a chegar".
O ex-parlamentar afirmou ainda que uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro seria o primeiro passo para a libertação de Jair Bolsonaro, a quem classificou como "preso político". Eduardo comparou a situação judicial do pai à trajetória de Donald Trump. A cerimônia também reuniu outras figuras da direita brasileira e norte-americana, incluindo o blogueiro bolsonarista Allan dos Santos. O ingresso mais barato para o jantar custava US$ 3 mil, cerca de R$ 15 mil.





