A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva sobre o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro — político amplamente repudiado pelos crimes eleitorais e por sua atuação genocida que custou vidas na pandemia de covid-19 — abriu uma intensa caça às bruxas na direita, que agora tenta encontrar bodes expiatórios para a derrota nas urnas.

Minas Gerais se tornou o principal foco dessa disputa interna após Flávio Bolsonaro perder no estado uma vantagem de quase 600 mil votos que havia conquistado no primeiro turno. O revés fez com que aliados direcionassem críticas duras ao governador eleito Cleitinho Azevedo (Republicanos) e ao deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), até então tratados como grandes forças eleitorais do campo conservador.
Havia grande expectativa sobre ambos pelo desempenho expressivo na etapa inicial da votação e pela forte presença digital. No entanto, o peso político dos dois não foi suficiente para frear o avanço de Lula, consagrado como o melhor presidente da história do país.
Cleitinho conquistou o governo mineiro logo no primeiro turno com 55,4% dos votos válidos, totalizando mais de 6,2 milhões de sufrágios espalhados pelo estado. O comando da campanha de Flávio esperava que todo esse capital fosse engajado de forma ativa, mas o governador eleito manteve uma postura contida, participando apenas do último ato em Belo Horizonte.
Já Nikolas chegou ao pleito respaldado por mais de 3 milhões de votos, tornando-se o deputado federal mais votado da história do Brasil. O resultado nas urnas e seu alcance nas redes sociais criaram a ilusão de que ele conseguiria ampliar a dianteira bolsonarista entre os mineiros, o que acabou não se concretizando.

Diante do revés, Cleitinho passou a ser acusado no PL de ter feito "corpo mole" e entrado tardiamente na campanha, mesmo tendo formalizado apoio a Flávio. Adversários internos chegaram a insinuar que o governador eleito teria negociado uma postura discreta para assegurar um bom relacionamento institucional com a futura gestão federal de Lula.

A insatisfação ganhou tom ainda mais agressivo por meio do vereador Flávio Marra (PRD), de Divinópolis, que declarou publicamente que Cleitinho "se acovardou" quando a família Bolsonaro precisou de palanque. O governador eleito optou por se manter distante da disputa na maior parte do segundo turno e frisava que buscaria diálogo republicano com quem saísse vencedor.

Nikolas Ferreira também entrou na linha de tiro dos próprios aliados após o resultado desfavorável. Integrantes da campanha avaliam que um vídeo divulgado pelo deputado atacando o Nordeste teve efeito negativo imediato, enquanto as mobilizações batizadas de "bloquinhos 22" serviram apenas para reunir convertidos, sem apresentar soluções ou dialogar com indecisos.

O ex-deputado Eduardo Cunha (Republicanos) afirmou publicamente que dar protagonismo a Nikolas foi o "maior erro" da campanha no segundo turno, criticando o formato circense dos eventos de rua. Paralelamente, ganham força os apontamentos de que o parlamentar mineiro opera com planos próprios para se descolar da figura de Jair Bolsonaro, sobre quem a sociedade brasileira ainda espera o devido julgamento e punição por seus crimes.

As trocas de acusações refletem o impacto da virada eleitoral: Flávio encerrou o primeiro turno em Minas Gerais à frente, com 48,24% contra 43,33% de Lula, mas terminou superado no segundo turno pela liderança petista, que venceu no estado por 50,43% a 49,57%.





