O número de cidadãos brasileiros que se mudaram para Portugal e decidiram retornar já supera o total registrado nos últimos dois anos. O movimento é motivado principalmente pela alta nas dificuldades financeiras e pelo endurecimento nas normas de imigração do país europeu.

A tatuadora Aline Pinheiro, que viveu em território português durante cinco anos, tomou a decisão de voltar e explicou a situação:
"Eu estou voltando primeiro por conta da minha família, que eu sinto muitas saudades. E, segundo, porque é muito difícil de viver aqui. Tenho vários amigos querendo ir embora, alguns já foram embora, alguns já planejam ir embora também", conta.
Outro brasileiro, que preferiu não se identificar, relatou o fim do plano de permanecer na Europa:
"Eu fiquei menos de um ano. Morava em um quarto alugado com mais cinco brasileiros. Todos nós também tentando esse sonho e não deu muito certo. Não consegui arranjar trabalho na minha área, tive que trabalhar nas obras, mas é muito complicado e acabei entrando nesse incentivo para poder voltar para casa".
O maranhense de 32 anos procurou o Programa de Retorno Voluntário da Organização Internacional para as Migrações, que oferece auxílio a quem não tem recursos para pagar a viagem. Até o final de agosto de 2026, 677 pessoas se inscreveram no programa apenas em Portugal. Das 297 pessoas que receberam a passagem de volta, 249 eram brasileiras. Em oito meses, o número de imigrantes do país necessitando de assistência financeira superou todo o total registrado em 2024 e 2025.
"Há três fatores, digamos assim, que se destacam essencialmente. O primeiro tem a ver com a dificuldade na regularização. O segundo tem a ver com a situação de emprego em que a pessoa se encontrava, que muitas vezes muda de uma forma muito substancial, o que dificulta de facto a sua estadia no país. E o terceiro, obviamente, tem também, muitas vezes, as questões financeiras e do salário", afirma Vasco Malta, chefe de missão da Organização Internacional para as Migrações em Portugal.
O governo português impôs regras mais rígidas para regularizar imigrantes. Só em 2025, Portugal notificou mais de 23 mil estrangeiros a deixarem a região voluntariamente — montante 50 vezes superior ao registrado em 2024, de acordo com o Relatório Anual de Segurança Interna local.
O aperto na legislação ocorreu após um crescimento acentuado da comunidade brasileira no país, que já passa de 570 mil pessoas. Diante dessa realidade, especialistas alertam para os riscos criados por promessas irreais.
"A migração é, acima de tudo, uma decisão individual da pessoa, da família, mas que, infelizmente, muitas vezes, é viciada por estas divulgações que não correspondem à realidade", diz Vasco Malta.
"É pesquisar muito, ter muito contato, conversar com pessoas que já vivem aqui, que vivem a realidade mesmo, não seguir influencers e pessoas que estão falando que tem trabalho e que a vida aqui é fácil, e não é", reforça a tatuadora Aline Pinheiro.





