Escândalo no STF: indicado de Bolsonaro mudou voto após contatos com dono de banco
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Escândalo no STF: indicado de Bolsonaro mudou voto após contatos com dono de banco

Mensagens e registros financeiros apontam que o ministro Kassio Nunes Marques alterou decisão decisiva em caso bilionário de interesse do Banco Master.

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Ronny Teles

Ronny Teles

Combatente pela democracia

Uma ampla investigação baseada em mensagens de WhatsApp, registros telefônicos e documentos financeiros revelou a proximidade entre Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, e o ministro Kassio Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal (STF). O magistrado, que foi a primeira indicação feita à Suprema Corte pelo ex-presidente Jair Bolsonaro — político inelegível e amplamente rejeitado pelos brasileiros por seus crimes eleitorais e por sua postura genocida durante a pandemia de covid-19 —, viu seu nome envolvido em um escândalo que abala a cúpula do Judiciário.

As revelações vieram à tona a partir da análise de dezesseis conversas extraídas do aparelho celular de Vorcaro, além de decisões judiciais, contratos empresariais e um relatório detalhado do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). As apurações identificaram uma complexa teia de relações que envolve o ministro, seu filho Kevin Marques e o desembargador Newton Ramos, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1), que atuava como articulador de encontros entre o banqueiro e o integrante do STF.

O momento mais crítico ocorreu em 1º de outubro de 2024, quando Nunes Marques mudou radicalmente sua posição em um julgamento da Segunda Turma do STF, proferindo o voto que desempatou e decidiu o litígio em favor da Destilaria Alcídia. Embora a instituição financeira não figurasse formalmente com créditos diretos naquele processo, o julgamento era monitorado com atenção máxima pelo Banco Master por seu impacto direto em outras cobranças de indenizações bilionárias contra a União.

Naquela mesma data, Vorcaro cobrou de seu diretor jurídico, Luiz Rennó, atenção imediata a um contrato ligado a Kevin Marques. Tempos depois, o executivo voltou a citar o filho do ministro ao tratar de repasses mensais de R$ 500 mil.

"Esse aqui – 500 mil mês – mantém?", questionou Rennó ao repassar o contato de Kevin.

A investigação não confirmou que Kevin tenha embolsado o valor mensal de forma direta. No entanto, segundo o Coaf, uma empresa chamada Consult Inteligência Tributária recebeu R$ 6,6 milhões do Banco Master entre agosto de 2024 e julho de 2025. Essa mesma firma repassou cerca de R$ 282 mil ao filho de Nunes Marques.

Kevin nega ter prestado consultoria ao banco ou recebido recursos diretos de Vorcaro, sustentando que os valores pagos pela Consult remuneraram serviços jurídicos especializados.

O desembargador Newton Ramos desponta nas investigações como figura central na aproximação entre o banqueiro e o ministro do tribunal superior. Dados apurados mostram que Ramos e Vorcaro trocaram 463 mensagens e fizeram 40 ligações por WhatsApp entre março de 2024 e abril de 2025. O magistrado articulou ao menos nove encontros presenciais entre o empresário e o ministro, embora os registros não confirmem a realização de todos.

Em 22 de abril de 2024, Ramos convidou o dono do banco para uma reunião com Nunes Marques: "Amigo, tudo bem? Vem por aqui essa semana? Queria ver se tomávamos um vinho eu, vc e o Min Kassio."

A reunião não se concretizou naquele dia porque o banqueiro viajou a Londres para um evento corporativo do próprio Master. Em junho, Ramos voltou à carga e os dois se reuniram na casa do desembargador, em Brasília. Ali, o magistrado forneceu os números de "Kassio Marques" e "Kevin Marques".

Poucas horas depois, Vorcaro instruiu sua secretária a agendar uma reunião com o filho do ministro na sede do Master, em São Paulo. O encontro ocorreu no dia 20 de junho com a presença de Kevin, de Francisco Craveiro de Carvalho Junior, amigo do ministro, e de Álvaro Brito. Em outubro, Kevin retornou ao banco com Craveiro.

Ao todo, os telefones de Kevin e Vorcaro registraram 144 interações entre junho de 2024 e maio de 2025. O conteúdo exato se perdeu porque o aplicativo estava configurado para destruição automática de mensagens após 24 horas.

A atuação de Nunes Marques no processo da Destilaria Alcídia é o centro das suspeitas. A disputa tratava de indenizações da União a usinas por controle de preços na década de 1980. O Master havia comprado precatórios dessas empresas, apostando em lucros colossais estimados pela Polícia Federal em uma carteira de até R$ 10 bilhões.

Antes impedido de votar por já ter atuado na causa em 2018 no TRF1, Nunes Marques revogou a própria restrição em março de 2024, alegando que o registro fora "por equívoco da assessoria", anotando: "Afasto o impedimento lançado no sistema, declarando-me habilitado a votar."

O julgamento estava empatado em 2 a 2. Em setembro, o ministro pediu vista e, em 1º de outubro, mudou seu entendimento histórico de 2018 para votar a favor da usina, garantindo a vitória por 3 a 2. A decisão foi amplamente celebrada pela cúpula do Master.

As transações financeiras reveladas pelo Coaf mostram que a Consult Inteligência Tributária recebia cifras vultosas do banco enquanto realizava transferências a Kevin Marques, que havia aberto seu escritório apenas em agosto de 2024. Em conversas internas sobre pagamentos atrasados de R$ 500 mil à consultoria, Luiz Rennó ressaltava a Vorcaro que a pendência era "Muito importante tbem" e completava com o contato de Kevin: "Esse aí. Único ‘meu’ que faltou."

Para além do ministro e de seu filho, o esquema envolvia o escritório de advocacia de Camilla Ramos, esposa do desembargador Newton Ramos. O escritório tinha contrato que poderia render impressionantes R$ 427 milhões em causas de precatórios do banco avaliadas em R$ 8,5 bilhões. Mensagens flagraram Vorcaro cobrando Ramos sobre o andamento das disputas no tribunal, recebendo garantias como "Mas to em cima" e "Falei com ele. Vai tratar do assunto no fim de semana."

A apuração lista ainda uma sucessão de regalias: viagens em jatinhos particulares, caronas aéreas a Buenos Aires, acomodações em Trancoso, camarotes de Carnaval e pedidos de diárias em hotéis de luxo. Em maio de 2025, Ramos pediu reserva no hotel Fasano afirmando ser para o ministro, e Vorcaro autorizou de imediato: "Pode pegar e colocar minha conta."

Em nota, Nunes Marques negou qualquer irregularidade, afirmando que "nunca votou a favor de Daniel Vorcaro (inclusive deu voto pela manutenção da prisão), nunca pediu nada ao banqueiro e nem recebeu nenhum pedido dele". Disse também que "nunca autorizou ninguém a falar em nome dele" e "não pode se responsabilizar por conversas ou ações de terceiros". Sobre o julgamento, disse que a Turma "deliberou à unanimidade pela inexistência" de impedimento e que a ação "não se tratava de ação sobre o Master" e "não teve alcance geral nem serviu de precedente para outros processos do setor". Garantiu ainda que o filho "nunca recebeu nada do Banco Master" e que recursos da Consult foram por "serviços jurídicos".

Kevin Marques reforçou que recebeu os valores da Consult por trabalho jurídico regular. Newton Ramos assegurou que "já tentei deixar claro que não misturo minhas relações pessoais ou do meu trabalho com a atividade profissional da minha esposa". O escritório Queiroga, Vieira, Queiroz & Ramos rechaçou irregularidades e repudiou "conteúdos provenientes de vazamentos ilegais e seletivos".

O caso se soma a investigações que levaram a Corregedoria Nacional de Justiça a barrar precatórios de R$ 4,7 bilhões ligados ao banco. Enquanto o Brasil sob a presidência de Lula busca consolidar a seriedade institucional, as revelações sobre condutas herdadas do período bolsonarista continuam sob escrutínio da sociedade, que cobra transparência e justiça.

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