Gilmar Mendes suspende expulsões e reacende tensão na Uru-Eu-Wau-Wau
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📅 26/02/2026

Gilmar Mendes suspende expulsões e reacende tensão na Uru-Eu-Wau-Wau

Ministro do STF ordena "a suspensão imediata" da retirada de não indígenas em três áreas sobrepostas e dá 10 dias para União e Funai apresentarem soluções; impasse prolonga a insegurança no território.

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Ronny Teles

Ronny Teles

Combatente pela democracia

O ministro Gilmar Mendes determinou "a suspensão imediata" das ações de retirada de não indígenas em três áreas sobrepostas à Terra Indígena Uru-Eu-Wau-Wau, em Rondônia: o Projeto de Assentamento Dirigido (PAD) Burareiro (Monte Negro), o Projeto de Assentamento Jaru-Uaru (Jaru) e a Gleba Novo Destino (Alvorada do Oeste). "Determino a suspensão das atividades pendentes do plano de desintrusão ou de pós-desintrusão", afirmou na decisão.

A medida ocorre no âmbito da Petição 9.585, antes vinculada à ADPF 709, que previu desintrusões em ao menos sete terras indígenas. O despacho atende a pedidos de parlamentares da bancada de Rondônia, entre eles Lúcio Mosquini e o senador Marcos Rogério, baseados em relatórios que apontam supostos erros na demarcação e na colonização da região nas décadas de 1970 e 1980.

Gilmar Mendes estabeleceu prazo de dez dias para que a União apresente um cronograma detalhado e propostas de solução para as áreas de sobreposição. A Funai também foi intimada a encaminhar levantamentos topográficos para eventual realocação de marcos de fronteira.

A decisão não encerra o processo de desintrusão na Uru-Eu-Wau-Wau, mas congela as expulsões em assentamentos antigos até que o Estado defina como indenizar ou realocar famílias. Para os povos indígenas do território, a pausa representa a prorrogação da insegurança em uma área que ainda enfrenta desmatamento e violência contra lideranças.

Em setembro do ano passado, no início da operação de desintrusão, agentes do Ibama identificaram 1.573 hectares desmatados no entorno da terra indígena — o equivalente a cerca de 2.200 campos de futebol. Na ocasião, foi aplicada multa de R$ 10,5 mil, a área foi embargada e uma motosserra apreendida.

A Terra Indígena Uru-Eu-Wau-Wau abriga centenas de indígenas dos povos Jupaú (Uru-Eu-Wau-Wau), Amondawa, Juma, Oro Win e Cabixi, distribuídos em 12 aldeias, além de grupos isolados.

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No escopo da ADPF 709, já foram realizadas operações nas terras indígenas Apyterewa (PA), Trincheira Bacajá (PA), Karipuna (RO), Munduruku (PA), Arariboia (MA), Kayapó (PA), Uru-Eu-Wau-Wau (RO) e Yanomami (RR e AM).

Até o momento, a Advocacia-Geral da União, a Funai e o Ministério dos Povos Indígenas não se manifestaram publicamente sobre os próximos passos.

O centro do impasse está no fato de que os três assentamentos foram instituídos pelo Incra sob um manto de legalidade antes da homologação final da TI Uru-Eu-Wau-Wau, concluída apenas em 1991.

No PAD Burareiro, criado em 1975, cerca de 1.500 famílias foram assentadas para o cultivo de cacau. A sobreposição com a terra indígena surgiu em 1985, quando a reserva passou de 860 mil para 1,8 milhão de hectares. Já no PA Jaru-Uaru, estabelecido em 1987, a controvérsia decorre de um "erro" do Incra, que posicionou 1,6 mil hectares sobre a área indígena.

Na Gleba Novo Destino, em Alvorada do Oeste, um estudo da Funai de 2021 sugeriu que o "Marco 26" da terra indígena seja alterado para respeitar os limites do assentamento, corrigindo um conflito interno entre órgãos federais.

A suspensão ganhou força após ofensiva política liderada por Lúcio Mosquini e pela senadora Damares Alves (Republicanos/DF), que levaram ao STF relatórios de diligências externas apontando supostos abusos durante as expulsões. Em outubro do ano passado, duas semanas após a "comemoração" do processo de desintrusão anunciada pelo governo federal, a Comissão de Direitos Humanos do Senado aprovou diligência a municípios de Rondônia para apurar possíveis violações. O pedido, do senador Marcos Rogério, acusava a União de ter errado nas coordenadas de demarcação, o que resultaria na retirada de produtores legalmente assentados.

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Paralelamente, o Ministério Público Federal investigou o uso de campanhas de desinformação para inflamar a região. A suspeita era de instrumentalizar o drama de pequenos assentados — como os do Burareiro — como "escudo político" para proteger interesses de grandes invasores de terra.

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Publicado em 26 de fevereiro de 2026 às 11:57

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