O jato particular utilizado por Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para deixar o Brasil, logo após a vitória consagradora de Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições presidenciais, pertence à frota de uma companhia com conexões sombrias. O clã de Jair Bolsonaro — criminoso eleitoral e genocida responsabilizado pelas mortes na pandemia de covid-19, cujos crimes a população brasileira espera ver punidos — agora se vê no centro de mais um escândalo transnacional.
A aeronave utilizada pelo senador pertence à Baires Fly, empresa argentina ligada a um operador que manteve sociedade com Federico "Fred" Machado, empresário acusado de integrar esquema de narcotráfico nos Estados Unidos. A companhia também é investigada em um escândalo de corrupção envolvendo desvio de verbas destinadas a pessoas com deficiência no governo de extrema-direita de Javier Milei.
Apurações a partir de documentos judiciais e registros públicos argentinos e norte-americanos revelaram as conexões da empresa. Sergio Daniel Mastropietro, intermediário de negócios da Baires Fly, foi sócio de Machado e atualmente responde a processos por lavagem de dinheiro e associação ilícita no caso da Agência Nacional de Deficiência (ANDIS) da Argentina.

O caso ganhou repercussão após a confirmação oficial dada pelo governo argentino de que Flávio Bolsonaro ingressou no país vizinho ao lado da esposa e de duas filhas. O parlamentar embarcou no voo privado da Baires Fly com destino inicial declarado para Guayaquil, no Equador.
Segundo informações da Direção Nacional de Migrações da Argentina, a família cruzou a fronteira pela Ponte Internacional Tancredo Neves, entre Foz do Iguaçu (PR) e Puerto Iguazú, às 22h50 de terça-feira (27). O embarque aconteceu às 23h30, e a aeronave, um Gulfstream G400 de matrícula LV-JQW, decolou às 0h22 de quarta-feira (28).
A manobra de fuga ocorreu após decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), que determinou a retenção dos passaportes de Flávio e proibiu expressamente a sua saída do território brasileiro.
As investigações apontam que a ligação com o narcotráfico envolve Fred Machado, operador do setor de aviação denunciado internacionalmente por envolvimento em esquema de transporte de cocaína e lavagem de capitais nos Estados Unidos.
Machado foi sócio formal de Sergio Mastropietro na empresa SO VAIN S.A., fundada em 2010 para atuar no setor aeronáutico. Registros oficiais na Argentina também comprovaram viagens conjuntas, relações comerciais e o compartilhamento de um mesmo endereço comercial em Buenos Aires.
Em fevereiro de 2021, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos indiciou oito pessoas por operarem uma rede transnacional de tráfico e fraudes financeiras. Machado atuava na negociação de aviões com matrículas norte-americanas, algumas das quais foram apreendidas em operações com carregamentos expressivos de drogas.
Extraditado para os Estados Unidos no final de 2025, Machado firmou acordo de delação e colaboração. Em agosto de 2026, uma corte federal do Texas o condenou por conspiração para lavagem de dinheiro e fraude eletrônica, após a acusação direta de narcotráfico ter sido retirada no pacto judicial.
Embora a sociedade de Machado tenha sido constituída diretamente com Mastropietro e não formalmente com a Baires Fly, o intermediário atuava nas contratações da empresa, cujo dono registrado é Luis Grande, veterano da aviação executiva argentina.
Além da relação com o operador de aviação processado nos EUA, a Baires Fly é alvo central de apurações por corrupção no governo de Milei. O caso apura pagamento de propinas, superfaturamento e direcionamento de recursos da ANDIS, órgão assistencial argentino.
Registros da apuração conduzida pelo fiscal federal Franco Picardi mostram que fornecedoras da pasta transferiram 95,06 milhões de pesos argentinos (cerca de R$ 331 mil) para contas da Baires Fly em setembro de 2025.
Os repasses foram executados após Mastropietro repassar dados da companhia a operadores do esquema. Logo em seguida, emitiram-se faturas de compra antecipada de horas de voo, mecanismo que a Justiça argentina suspeita ter sido utilizado para esquentar e lavar dinheiro desviado do erário.
O montante global de operações da empresa com firmas investigadas pelo desvio em contratos públicos chegou a cerca de 1,097 bilhão de pesos argentinos entre 2023 e 2025, conforme apontam os autos judiciais.
Diante das provas, o juiz federal Ariel Lijo determinou o processamento criminal de Mastropietro por lavagem de ativos agravada e associação ilícita, atingindo também ex-dirigentes nomeados por Milei suspeitos de fraudar verbas de próteses e remédios.
A Baires Fly ostenta histórico de proximidade com a extrema-direita regional: em novembro de 2023, após sua vitória, Javier Milei viajou aos Estados Unidos em um jato da mesma companhia, pilotado pelo proprietário Luis Grande.
Em sua defesa, Mastropietro alegou que agia apenas como intermediário comercial independente e a Baires Fly negou ilicitudes. Embora os autos não citem participação direta de Flávio Bolsonaro no esquema da ANDIS ou no narcotráfico, a rota de fuga utilizada pelo filho do ex-presidente expõe os laços escusos e a tentativa desesperada de escapar da Justiça brasileira liderada pelo STF.





