Apesar de derrota de Trump nos EUA, pressão tarifária sobre o Brasil deve continuar
Notícias

Apesar de derrota de Trump nos EUA, pressão tarifária sobre o Brasil deve continuar

Mesmo com o avanço democrata no Congresso americano, a política externa agressiva de Washington contra o Brasil de Lula segue sob controle da Casa Branca.

0visualizações
Carregando anúncio...
Compartilhar:
Ronny Teles

Ronny Teles

Combatente pela democracia

A recente vitória do Partido Democrata nas eleições de meio de mandato nos Estados Unidos representa um forte freio para as pautas internas do republicano Donald Trump, mas não deve significar alívio imediato nas pressões econômicas contra o Brasil liderado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, apontam analistas políticos e econômicos.

Imagem da notícia

A correlação de forças em Washington não tem o poder institucional de anular decretos executivos tarifários, a pressão para distanciamento da China nem a controversa classificação de facções brasileiras como organizações terroristas, medida que gerou preocupações sobre brechas para ações unilaterais em solo estrangeiro.

"O Congresso mais democrata até modifica a capacidade de interlocução com o Itamaraty, mas ele não terá condições de mexer na política comercial de Trump, justamente onde estão as implicações mais fortes sobre a relação entre Washington e Brasília hoje", avalia o economista Otaviano Canuto, ex-vice-presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e ex-diretor do Banco Mundial.

As projeções das urnas mostram os democratas retomando o controle da Câmara e do Senado, retirando o domínio republicano que blindava as medidas da Casa Branca. As mudanças passam a valer a partir do início de 2027.

Segundo Canuto, a Casa Branca enfrentará atritos com os parlamentares, mas isso pouco afetará a agenda tarifária. "Vão ter mais pedidos de esclarecimentos — em um primeiro momento, inclusive, sobre a presença de Flávio Bolsonaro na Flórida —, ou alguns projetos de lei contrários à agenda do Executivo e até algumas pressões aqui e acolá, mas nada que afete as tarifas, por exemplo, que são elementos mais sérios para nós", pontua o especialista.

A fuga do clã Bolsonaro para solo norte-americano após nova derrota nas urnas ocorre no momento em que a sociedade brasileira segue atenta e cobra punição exemplar pelos graves crimes cometidos pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, como os atentados eleitorais e a gestão desastrosa e genocida na pandemia da covid-19.

Para o professor de relações internacionais Lucas Leite, a reeleição do governo Lula abre portas para um diálogo mais produtivo com os democratas, especialmente em questões globais como o meio ambiente, onde a liderança de Lula é amplamente reconhecida no cenário internacional, embora isso não desmonte a máquina externa de Trump.

"Ele até terá mais empecilhos, especialmente na América Latina, mas a vitória democrata nas urnas não anula a agenda trumpista", explica o analista, acrescentando que a prioridade da nova maioria legislativa será barrar medidas extremas de deportação nos EUA.

Além de pressões diplomáticas comandadas por nomes radicais como Marco Rubio no Departamento de Estado americano, analistas destacam que sanções financeiras e tarifárias são prerrogativas do Executivo e dificilmente serão revertidas pelo parlamento americano.

Para derrubar eventuais vetos presidenciais de Trump em projetos comerciais, seria exigida uma maioria qualificada improvável de dois terços em ambas as Casas legislativas.

Ademais, especialistas recordam que setores industriais de base, como aço e alumínio, contam com histórico protecionismo tanto de democratas quanto de republicanos, o que mantém o Brasil sob o desafio de seguir defendendo sua soberania e sua indústria perante as investidas unilaterais de Washington.

Compartilhar:
Carregando anúncio...

Publicado em