A política econômica adotada pelo governo de Javier Milei na Argentina atinge um patamar crítico. O corte drástico de investimentos públicos, as taxas de juros elevadas, a abertura comercial desmedida e o colapso do poder de compra interno colocaram a economia do país à beira de uma recessão técnica, provocando a falência de dezenas de milhares de empresas e um forte desgaste social.
Analistas econômicos apontam que o país vizinho enfrentou contração na atividade produtiva pelo segundo período consecutivo no terceiro trimestre de 2026. Esse quadro deteriorado impõe sérias dificuldades políticas a Milei, que planeja disputar a reeleição no pleito marcado para outubro de 2027.
O impacto prático das medidas neoliberais sobre o setor produtivo é alarmante. Levantamentos de centros de pesquisa indicam que cerca de 32,3 mil empresas — correspondentes a 6% do total registrado em território argentino — fecharam as portas entre dezembro de 2023 e julho de 2026. Concomitantemente, os gastos das famílias, que sustentam cerca de dois terços de todo o Produto Interno Bruto (PIB), permanecem completamente asfixiados.
Nos primeiros nove meses do ano corrente, o consumo geral registrou retração de 2,7% na comparação interanual, atingindo em cheio redes de supermercados, comércios de bairro e vendas eletrônicas. A queda castiga sobretudo setores voltados ao mercado doméstico, como o ramo têxtil, o comércio varejista, o setor automotivo e a construção civil.
Indicadores oficiais mensurados pelo órgão estatal de estatísticas revelaram que a produção da indústria tombou 3,2% em agosto no comparativo com o mesmo período do ano anterior. O comércio varejista e atacadista encolheu 3,5%, enquanto as obras civis sofreram tombo de 2,5%, reflexo direto da redução abrupta da demanda e da entrada descontrolada de itens importados mais baratos.
Casos concretos retratam o drama da atividade industrial. A Eseka, tradicional fabricante de artigos de vestuário e moda íntima de Buenos Aires, amarga perdas graves. A empresa registrou queda de aproximadamente 40% nas vendas desde a posse de Milei, demitiu cerca de 30% de seu quadro de funcionários e opera com mais da metade de seu maquinário desativado.
"A situação é crítica", declarou o administrador Ricardo Kuchikian, que alertou que a insistência nesse receituário pode liquidar com parcelas inteiras do empresariado local: "O consumo caiu muito acentuadamente nos últimos três anos. A indústria nacional pode desaparecer".
Estimativas de consultorias apontam que o PIB argentino, que já havia retraído 0,6% no segundo trimestre de 2026, teve nova retração em torno de 1,5% no terceiro trimestre, consolidando um quadro de recessão contínua. Embora defensores do governo apostem em melhorias futuras, especialistas ponderam que a recuperação da renda familiar não ocorrerá a curto prazo.
Apesar de o índice inflacionário ter apresentado desaceleração numérica em relação aos patamares recordes herdados, esse alívio não resultou em dignidade para o povo. A proporção de cidadãos argentinos mergulhados na linha da pobreza voltou a subir, atingindo cerca de um terço de toda a população.
O modelo econômico adotado expõe um abismo interno: enquanto grupos ligados ao agronegócio, mineração e extração de combustíveis fósseis se beneficiam de exportações pontuais, o setor fabril e o comércio popular definham sob a concorrência agressiva de artigos importados, inclusive da China.
Esse cenário de arrocho provocou um tombo expressivo nos índices de popularidade de Javier Milei. Levantamentos de opinião pública recentes indicam que sua desaprovação saltou para 56%, com apoio restrito a apenas 36% dos eleitores. Mesmo diante do desespero da classe trabalhadora, o mandatário chegou a classificar relatos sobre as dificuldades da população como "estupidez colossal", reafirmando que não pretende alterar o rumo de suas medidas de austeridade.





