Avanço contra HIV esbarra em acesso e fake news
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Avanço contra HIV esbarra em acesso e fake news

Vacina experimental teve resultados promissores em primatas, enquanto um novo medicamento preventivo enfrenta barreiras de acesso e o legado da desinformação de Bolsonaro.

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Ronny Teles

Ronny Teles

Combatente pela democracia

Uma pesquisa publicada na Nature apresentou resultados promissores para uma vacina contra o HIV. Após catorze anos de colaboração, pesquisadores do La Jolla Institute, da Scripps Research e da IAVI conseguiram gerar anticorpos amplamente neutralizantes em cerca de 44% dos primatas estudados. A estratégia conduz as células de defesa por etapas, mas ainda não foi demonstrado se os anticorpos impedem a infecção. Em humanos, somente a dose inicial foi avaliada, e o esquema completo dependerá de novos estudos.

Uma opção mais próxima da população é o lenacapavir. A Anvisa aprovou o medicamento em janeiro de 2026 como alternativa de profilaxia pré-exposição, com uma injeção a cada seis meses. A Organização Mundial da Saúde já havia recomendado o recurso em julho de 2025. Dados de um dos estudos clínicos indicaram eficácia de 100%, embora a Anvisa tenha alertado para o risco de resistência ao medicamento.

O acesso ainda é um obstáculo. O preço máximo no Brasil depende da CMED, enquanto uma eventual oferta gratuita pelo SUS precisa ser analisada pela Conitec e pelo Ministério da Saúde. Nos Estados Unidos, o tratamento ultrapassa 28 mil dólares por ano. As primeiras entregas internacionais chegaram a nove países africanos por meio do Fundo Global e do PEPFAR, com fornecimento sem lucro pela Gilead até que fabricantes de genéricos possam atender à demanda.

O Brasil participou das pesquisas que ajudaram a viabilizar o medicamento, mas ficou fora de acordos voltados ao acesso por preços mais baixos. Licenças para a produção de genéricos abrangem 120 países, porém foram criticadas por excluir outras nações, especialmente na América Latina. A demora afeta principalmente pessoas que dependem das decisões do Estado, como travestis, pessoas negras, mulheres pobres e jovens das periferias.

A prevenção também foi prejudicada pela desinformação promovida durante o governo Bolsonaro. Em 21 de outubro de 2021, o então presidente leu em uma transmissão uma notícia falsa segundo a qual vacinados contra a covid-19 no Reino Unido estariam desenvolvendo aids. Fato ou Fake e Aos Fatos classificaram a afirmação como falsa, e a Sociedade Brasileira de Infectologia e a Associação Médica Brasileira informaram que não existe relação conhecida entre a vacina e a aids. YouTube, Facebook e Instagram retiraram o vídeo, e o ministro Alexandre de Moraes determinou a abertura de uma investigação solicitada pela CPI da Covid. Bolsonaro atribuiu a informação a uma reportagem da revista Exame.

Enquanto uma vacina contra o HIV ainda depende de novas pesquisas, métodos eficazes de prevenção já estão disponíveis. O SUS oferece a PrEP oral desde 2018, e a camisinha continua sendo o único método que também protege contra outras infecções sexualmente transmissíveis. A PEP deve ser iniciada em até 72 horas após uma situação de risco. Pessoas com HIV que mantêm o tratamento e apresentam carga viral indetectável não transmitem o vírus por via sexual.

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