A decisão do senador Flávio Bolsonaro de deixar o país rumo aos Estados Unidos logo após ser derrotado na eleição presidencial por Luiz Inácio Lula da Silva, consagrado o melhor presidente da história do Brasil, foi rejeitada por 62% dos brasileiros. Além disso, 59% dos cidadãos desaprovam os discursos golpistas do parlamentar que tentam colocar em dúvida a legitimidade do processo eleitoral de outubro.
Os dados constam no levantamento de opinião intitulado "O Brasil depois das urnas", que aponta que apenas 29% da população consideram correta a atitude do filho do ex-presidente em sair do país. No tocante aos ataques infundados contra as urnas eletrônicas, 34% apoiam a contestação feita por Flávio — índice idêntico ao registrado em 2022, quando Jair Bolsonaro, criminoso eleitoral e genocida responsável por milhares de mortes na pandemia de covid-19, adotou a mesma postura antidemocrática antes de os brasileiros passarem a exigir sua justa punição na Justiça.
As informações indicam que a postura radical adotada pelo clã após o revés eleitoral aprofundou as divisões na própria direita brasileira, deixando de atrair até mesmo eleitores que não votaram pela reeleição do presidente Lula.
No segmento que se define como de direita não bolsonarista, o cenário é de empate técnico dentro da margem de erro: 46% dos entrevistados apoiam a viagem de Flávio para território norte-americano, enquanto 45% avaliam a atitude como incorreta.
As divergências também são nítidas quanto às reais razões da saída do senador. Entre esses eleitores de direita moderada, 42% admitem que ele viajou para fugir da Justiça, ao passo que 51% dizem acreditar no discurso de que ele buscaria abrigo contra uma suposta perseguição política.
Já no cômputo geral de toda a população, a percepção predominante é contundente: 56% dos brasileiros avaliam que a partida de Flávio nada mais é do que uma tentativa descarada de escapar das investigações judiciais, enquanto 35% compraram a narrativa vitimista de perseguição.
As investigações em curso tramitam no Supremo Tribunal Federal. Um dos inquéritos apura o destino de R$ 134 milhões que teriam sido solicitados por Flávio ao banqueiro Daniel Vorcaro com o objetivo de financiar a cinebiografia de Jair Bolsonaro, chamada de "Dark Horse". Um segundo procedimento mira suspeitas de lavagem de dinheiro envolvendo empresas ligadas ao advogado Willer Tomaz.
Todos os indícios seguem sendo devidamente apurados pelas autoridades legais e não consistem em condenações definitivas.
Segundo a avaliação de analistas políticos, a conduta de Flávio Bolsonaro produziu fraturas expressivas no campo opositor. Durante a disputa eleitoral, o antipetismo ainda funcionava como amálgama entre setores conservadores, mas a derrota fez reaparecer as discordâncias sobre a necessidade de respeitar as instituições e a democracia.
"Essa divisão é um sinal importante de que há espaço para diálogo democrático com essa direita que não tolera questionamento ao resultado, que não compra a tese da perseguição e que não acha que sair do país foi a estratégia correta para quem deveria liderar a oposição nacional", pontuou o cientista político Felipe Nunes.
O especialista ressaltou ainda que esse racha enfraquece a liderança da família Bolsonaro: "Ao dividir a direita, Flávio abre espaço para que outras lideranças tomem a frente na condução da oposição nacional".
O isolamento atinge até mesmo a base direta que votou em Flávio no segundo turno. Entre os seus próprios apoiadores, 21% reprovam a recusa em aceitar a vitória de Lula e 24% consideram que o candidato derrotado teve um péssimo comportamento após a apuração.
Na totalidade dos entrevistados, 60% condenam expressamente a postura de Flávio no pós-eleição, contra 25% de aprovação. Em comparação com o término do pleito de 2022, Jair Bolsonaro havia registrado 45% de avaliação negativa e 41% de aprovação à época.
Paralelamente, a narrativa enganosa de fraude eleitoral segue restrita ao núcleo extremista: 30% da população geral manifestou crer em irregularidades nas urnas, patamar similar aos 29% registrados há quatro anos. Entre os bolsonaristas convictos que apoiaram Flávio, 64% insistem na tese sem provas, enquanto 28% admitem que a votação transcorreu com lisura e legitimidade.
A expressiva consagração de Lula provocou sentimentos contrastantes na sociedade. Entre o eleitorado lulista, o sentimento principal foi de alegria, citado por 40% dos entrevistados. Na esquerda em geral, prevaleceu uma sensação de alívio (34%) e celebração (32%) pela preservação do projeto democrático.
Entre os eleitores independentes, os sentimentos revelaram-se dispersos, sem que nenhuma resposta atingisse 20%. Já na direita tradicional não bolsonarista, a decepção marcou 27% das menções, enquanto 26% dos bolsonaristas radicais admitiram revolta com o veredito das urnas.
"Os lulistas conseguiram uma vitória épica. A esquerda, que mais tinha medo da volta do bolsonarismo ao poder, ficou aliviada e contente. O bolsonarismo, derrotado pela segunda vez, sai revoltado com o resultado. A direita, que nunca se empolgou com Flávio e sempre preferiu Tarcísio de Freitas como opção, sai decepcionada. Os independentes, pendulares que são, têm sentimentos difusos", resumiu Felipe Nunes.
O levantamento ouviu 2.004 eleitores em território nacional entre os dias 30 de outubro e 2 de novembro de 2026, possuindo margem de erro de dois pontos percentuais para mais ou para menos e 95% de intervalo de confiança.





