A Polícia Federal encontrou indícios de que Flávio Bolsonaro, senador e candidato do PL, pode ter mantido participação econômica ou societária de fato em uma offshore ligada à propriedade de um jatinho.
A aeronave tinha entre seus cotistas uma empresa relacionada ao banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Flávio utilizou o avião em janeiro de 2025.

Documentos obtidos pela PF mostram que o senador aparecia como "usuário master" de uma conta bancária da Alcazar Holdings, sediada na Ilha da Madeira, em Portugal.
A Alcazar detinha 33,33% da Fraction 024 Administração de Bem Próprio S.A., proprietária do jatinho Embraer Legacy 650, de matrícula PP-NLR.
O relatório foi produzido a partir de documentos extraídos do iCloud do advogado Willer Tomaz, investigado na Operação Sem Desconto.
A operação apura fraudes bilionárias envolvendo aposentadorias e pensões do Instituto Nacional do Seguro Social, o INSS.
Os investigadores verificaram que a conta estava ligada justamente à offshore que participava da propriedade do avião utilizado por Flávio.
Na época da viagem, Daniel Vorcaro também integrava a estrutura societária da aeronave por meio da empresa Prime You.
A suspeita da PF é que a relação de Flávio com a companhia possa ir além da condição de passageiro convidado de Willer Tomaz, versão apresentada pelo senador quando os voos vieram a público.
O principal elemento analisado está na documentação bancária da Alcazar Holdings. Willer Tomaz aparecia como único sócio formal da empresa.
Flávio constava nos documentos de abertura da conta mantida no Santander com o perfil de "usuário master".
Esse tipo de cadastro permite um nível elevado de acesso e gerenciamento das operações bancárias.
Para os investigadores, o registro levanta a hipótese de que o senador pudesse exercer algum tipo de participação econômica ou societária na offshore, mesmo sem constar formalmente como sócio.
Em 22 de maio de 2025, Fayla Menezes, secretária de Willer Tomaz, enviou um e-mail a gestores do Santander solicitando a inclusão de um novo usuário master e a retirada de contas vinculadas ao cadastro.
Entre os nomes relacionados estavam Flávio Bolsonaro e uma conta pessoal de Willer Tomaz.
Na resposta, enviada às 10h21 do mesmo dia, o banco informou que as contas haviam sido excluídas do contrato conforme solicitado.
O registro indica que o nome de Flávio permaneceu associado à estrutura bancária até maio de 2025, quatro meses depois de ele utilizar o jatinho.
O documento isoladamente não comprova que Flávio movimentou recursos, recebeu dividendos ou comprou participação na empresa. Essas possibilidades ainda são investigadas.
A Alcazar Holdings possuía um terço da sociedade proprietária do Embraer Legacy 650 usado pelo senador em uma viagem entre Brasília e Fort Lauderdale, nos Estados Unidos.
A propriedade do avião estava dividida em três cotas. Além da offshore ligada a Willer Tomaz, participavam da estrutura o empresário Laércio Cosentino, fundador da Totvs, e a Prime You.
Daniel Vorcaro foi sócio da Prime You até setembro de 2025.
Documentos analisados pela PF indicavam que cada participação de 33,33% no avião estava avaliada em aproximadamente US$ 5,5 milhões em maio de 2025.
O acesso bancário atribuído a Flávio acrescentou uma dimensão patrimonial à investigação sobre o uso da aeronave.
Quando a viagem se tornou pública, o senador afirmou que havia utilizado o jatinho a convite de Willer Tomaz, com quem mantém uma relação de amizade.
O advogado declarou que desconhecia a participação de Vorcaro na Prime You. Também sustentou que o voo foi custeado com as horas correspondentes à sua própria cota no avião.
A documentação bancária levou a PF a examinar se a relação de Flávio com a Alcazar se limitava à amizade com o proprietário formal ou se havia interesse econômico do senador na empresa.
A investigação também identificou viagens internacionais envolvendo Flávio Bolsonaro, Willer Tomaz e familiares dos dois ao longo de 2025.
Em março, eles participaram de um safári na África do Sul acompanhados do senador Weverton Rocha, do PDT do Maranhão, também citado nas apurações relacionadas ao caso do INSS.
Outra empresa, a Cathedral Holding, teria sido usada como intermediária na compra de passagens para viagens do advogado com Flávio e integrantes da família do senador.
Há registros de um deslocamento entre Lisboa, em Portugal, e Nice, na França, em 11 de abril de 2025. Flávio, Willer e suas respectivas esposas participaram da viagem.
Outra reserva, para 23 de maio, previa um voo entre Cascais, em Portugal, e Nice, com Flávio, sua mulher, Fernanda Bolsonaro, as filhas do casal, Willer Tomaz e outros passageiros.
O destino final previsto seria Mônaco, localizado próximo à cidade francesa.
Os investigadores tentam esclarecer quem pagou pelos deslocamentos e se houve algum benefício econômico relacionado às empresas envolvidas.
Willer Tomaz afirma que as viagens eram de lazer e que os convidados não fizeram pagamentos nem ofereceram contrapartidas.
A PF também encontrou registros do uso do aplicativo Confide nas comunicações entre Willer e Flávio.
O serviço oferece criptografia, desaparecimento automático de mensagens e mecanismos que dificultam a captura de telas.
Segundo o relatório, o número de Flávio aparecia entre os contatos favoritos do advogado. O uso do aplicativo não é irregular por si só, mas passou a integrar o conjunto analisado pela PF.
Relatórios divulgados em setembro apontaram que Flávio participou diretamente das tratativas com Vorcaro para obter recursos destinados à produção.
Segundo os investigadores, o senador conversou com o banqueiro, participou de reuniões presenciais e realizou cobranças relacionadas aos pagamentos.
A PF também investiga o destino do dinheiro ligado ao projeto e a possibilidade de parte dos recursos ter sido usada para pagar despesas de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.
As apurações sobre o filme são distintas da investigação da Alcazar Holdings. Até o momento, os documentos divulgados não demonstram que esses recursos passaram pela offshore ou pela conta em que Flávio aparecia como usuário master.
A assessoria de Flávio contesta as conclusões e afirma que ele nunca manteve conta bancária conjunta com Willer Tomaz ou com empresas do advogado.
Segundo a defesa, o e-mail enviado ao Santander demonstraria uma vinculação indevida, posteriormente corrigida com a exclusão do cadastro.
A assessoria também nega qualquer participação econômica ou societária de Flávio na Alcazar Holdings e questiona a divulgação das informações durante o período eleitoral.
Willer Tomaz sustenta que mantém apenas uma relação de amizade com o senador e nega vínculos financeiros ou societários. O advogado afirma que as viagens ocorreram sem pagamentos ou contrapartidas dos convidados e classifica a divulgação dos documentos como "vazamento criminoso".





