Na Indonésia, Lula critica protecionismo às vésperas de encontro com Trump.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a defender a substituição do dólar por moedas nacionais em parte das transações entre países.
A ideia é apoiada por China e outros emergentes, mas desagrada ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que já se manifestou contra.
O enredo ganhou força após o discurso no Palácio de Merdeka, em Jacarta, capital da Indonésia, ao lado do presidente Prabowo Subianto.
Desde Bretton Woods, em 1944, o dólar virou a moeda de referência do comércio internacional.
A aceitação global e a ligação com instituições financeiras internacionais consolidaram o dólar como padrão.
Hoje, a prática comum é converter moedas locais para o dólar nas operações entre países.
Brasil, China e Rússia defendem ampliar o uso de moedas nacionais para reduzir dependências.
O tema é discutido no Brics, grupo fundado por Brasil, China, Rússia e Índia.
Um dos motivos é a vulnerabilidade às oscilações da política monetária dos Estados Unidos, mesmo com a estabilidade econômica americana reduzindo riscos no curto prazo.
Há também razões geopolíticas para a discussão.
Após a invasão da Ucrânia, bancos russos foram excluídos do sistema SWIFT, o que gerou sanções.
Sem o SWIFT, a Rússia passou a reivindicar transações em outras moedas para diminuir a dependência do sistema internacional.
A China, parceira da Rússia, incentiva negociações em yuan, fortalecendo sua economia.
No ano passado, em meio à crise, a Argentina recebeu financiamento em yuan, diante da dificuldade de acessar organismos internacionais.
Para a China, fortalecer o yuan é um passo para ampliar sua influência frente ao dólar.
Trump já afirmou que imporá taxas adicionais a produtos do Brics se o grupo substituir o dólar.
Hoje, há uma tarifa de 50% dos EUA sobre alguns produtos brasileiros, inclusive o café, e o Brasil tenta reverter o tarifaço.
Existe a expectativa de um encontro entre Lula e Trump na Malásia no domingo (26), e analistas veem a fala sobre moedas nacionais como um possível embaraço nas negociações.
Em conversas entre o chanceler Mauro Vieira e o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, o tema foi colocado pelos americanos como indesejado.
Rússia e China têm liderado o uso de moedas nacionais em transações bilaterais para mitigar efeitos de sanções ocidentais.
O Banco Central do Brasil firmou um memorando com o Banco Central da China para facilitar operações direta entre real e yuan, sem passar pelo dólar, reduzindo custos.
O Novo Banco de Desenvolvimento (Banco dos Brics) financia projetos em moedas locais, diminuindo a dependência de instituições como FMI e Banco Mundial.
A substituição do dólar no bloco, ou a criação de uma moeda própria do Brics, não é esperada no curto prazo.
Especialistas em comércio exterior alertam para riscos dessa mudança no cenário atual.
Menos estabilidade: o dólar é a moeda mais líquida e segura; substituí-lo pode aumentar a volatilidade e o risco de crises cambiais.
Crédito mais caro: como dívidas internacionais são referenciadas em dólar, mudar a base pode elevar juros e encarecer financiamentos públicos e privados.
Falta de alternativa confiável: nenhuma moeda tem a mesma aceitação do dólar; o euro tem limitações e o yuan é controlado politicamente, o que pode reduzir confiança.
Isolamento comercial: com o comércio global precificado em dólar, abandonar a moeda complica contratos e afasta investidores, impactando exportadores e importadores.
