Marina alerta para ameaça bolsonarista à Amazônia
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Marina alerta para ameaça bolsonarista à Amazônia

Ex-ministra afirma que uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro poderá reabrir o caminho para o desmatamento, ameaçar povos tradicionais e colocar em risco avanços ambientais do governo Lula.

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Ronny Teles

Ronny Teles

Combatente pela democracia

A ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva alertou que uma eventual vitória do senador Flávio Bolsonaro na eleição presidencial poderá retomar e aprofundar a destruição ambiental registrada durante o governo de Jair Bolsonaro, entre 2019 e 2022.

Marina afirmou que um novo governo bolsonarista representaria uma ameaça à Amazônia, aos povos indígenas e quilombolas e ao enfrentamento da crise climática. Segundo ela, Flávio poderá concluir o que classificou como um "projeto perverso" iniciado pelo pai.

"Não tenho dúvidas de que, desta vez, eles tentarão concluir o projeto perverso que começaram com [Jair] Bolsonaro. Se forem eleitos, e Deus e o povo brasileiro permitam que isso não aconteça, usarão seu tempo para tentar acelerar ao máximo todos os retrocessos que puderem, inclusive para se manter no poder", declarou Marina.

Durante a gestão de Jair Bolsonaro, órgãos responsáveis pela fiscalização ambiental e pela proteção dos povos indígenas perderam capacidade de atuação. O período também foi marcado pelo avanço do desmatamento e da violência na Amazônia.

Para Marina, a visão política da família Bolsonaro pressupõe a retirada da floresta para ampliar atividades econômicas, apesar das consequências ambientais e sociais.

"A visão que eles têm da Amazônia é a mesma que têm de tudo. Eles são negacionistas. A visão deles é que a floresta precisa ser removida para dar lugar a atividades econômicas", afirmou.

A ex-ministra avalia que um novo governo bolsonarista poderá voltar a estimular o garimpo ilegal, as invasões de terras indígenas e a violência contra comunidades indígenas e quilombolas.

Marina também demonstrou preocupação com a influência do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre a política brasileira. Na avaliação dela, a relação entre Trump e os Bolsonaro poderá favorecer uma exploração mais agressiva dos recursos naturais.

"O Brasil não pode ser governado por um grupo político que queira se transformar em um protetorado americano, como acontece hoje com a Venezuela", disse a ex-ministra, que considera uma eventual administração de Flávio Bolsonaro "subserviente" aos Estados Unidos.

Marina recordou que, ao reassumir o Ministério do Meio Ambiente em janeiro de 2023, encontrou uma estrutura ambiental enfraquecida após a vitória de Lula sobre Jair Bolsonaro na eleição de 2022.

Entre as primeiras medidas adotadas pelo governo Lula esteve o envio de tropas para retirar milhares de garimpeiros ilegais da Terra Indígena Yanomami, a maior do país.

O desmatamento na Amazônia caiu quase 50% durante o governo Lula. A área desmatada neste ano foi estimada em 2,6 mil quilômetros quadrados, ante quase 11,6 mil quilômetros quadrados no último ano da gestão Bolsonaro.

Marina teme que esses avanços sejam revertidos se a família Bolsonaro voltar ao comando do país. "É profundamente triste e preocupante", afirmou a ex-ministra, de 68 anos, nascida na Amazônia e filha de seringueiros.

Ela comparou a possibilidade de retrocesso ao mito de Sísifo, personagem condenado a empurrar uma pedra montanha acima para depois vê-la cair.

"É como o mito de Sísifo. Rolar a pedra até o topo e vê-la cair novamente. Só que ela não cairá em um terreno vazio: cairá diretamente sobre todos nós", declarou.

A ex-ministra também destacou a possibilidade de o Brasil alcançar a menor taxa de desmatamento em mais de uma década e avançar em direção à meta de desmatamento zero até 2030. Uma mudança de governo, segundo ela, poderá colocar esses objetivos em risco.

Marina ainda relacionou a preocupação ambiental à previsão de um super El Niño, fenômeno capaz de agravar secas e enchentes. Para ela, os efeitos poderão ser mais graves sob uma administração sem compromisso com prevenção e adaptação às mudanças climáticas.

Mesmo que Flávio Bolsonaro não vença a eleição presidencial, Marina considera que a composição conservadora do Congresso Nacional poderá dificultar a preservação ambiental nos próximos anos.

Nas eleições legislativas, o Partido Liberal conquistou 19 das 54 vagas em disputa no Senado, que possui 81 cadeiras, e 121 das 513 cadeiras da Câmara dos Deputados.

Para Marina, esse cenário aumenta o risco de mudanças nas leis que enfraqueçam a proteção ambiental e os direitos dos povos indígenas. A ex-ministra disputou uma vaga no Senado, mas não foi eleita.

"Mesmo com a composição atual do Congresso, testemunhamos inúmeros retrocessos", afirmou. Ela teme que parlamentares avancem sobre unidades de conservação e territórios indígenas para reduzir ou eliminar as proteções existentes.

A preocupação não se limita à Amazônia. Marina também citou a Mata Atlântica, o Cerrado, o Pantanal e o Pampa entre os biomas ameaçados por essa orientação política.

"É um processo devastador. Estou preocupada não apenas com a Amazônia, mas com todos os nossos biomas", declarou.

A ex-ministra também teme que uma eventual volta dos Bolsonaro ao poder reverta avanços sociais alcançados durante os governos Lula, incluindo o combate à fome e a ampliação do acesso ao ensino superior.

Marina considera que a democracia brasileira está sob ameaça. Jair Bolsonaro cumpre pena de 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado após perder a eleição presidencial de 2022, e existe a possibilidade de que seja nomeado ministro se seu grupo político voltar ao poder.

A preocupação aumentou depois que Flávio Bolsonaro anunciou a intenção de "redemocratizar" o Brasil e mudar a Constituição, inclusive com a possibilidade de ampliar a duração dos mandatos presidenciais.

"Essa é uma palavra muito perigosa, porque, para uma mentalidade autoritária, o que significa redemocratização?", questionou Marina. "Significa uma democracia para que eles permaneçam no poder indefinidamente; atropelando as regras constitucionais; interferindo na lógica da separação dos Poderes; tendo o poder de nomear ministros da Suprema Corte para moldá-la à sua própria imagem e semelhança. Na realidade, eles são uma espécie de versão de direita do que foi feito na Venezuela [sob Maduro]." Em seguida, acrescentou: "Eles estão dispostos a corroer nossa democracia por dentro".

Apesar das preocupações, Marina acredita que Lula poderá reverter o resultado do primeiro turno e conquistar a reeleição em 25 de outubro. Ela pretende conversar com os mais de 30 milhões de eleitores que não votaram na primeira etapa. "Eu acredito profundamente que isso é possível", disse. Uma pesquisa Datafolha divulgada na quinta-feira, dia 8, apontou Flávio Bolsonaro com 52% dos votos válidos, contra 48% de Lula.

"Eu tiro minha energia da insistência em viver. Acredito que viver significa resistir, e o impulso de morte, por mais forte que seja, sempre perde para o impulso de vida. Olhem para nós: estamos aqui. Nossos pais e nossos avós se foram, mas nós chegamos até aqui. Acredito sinceramente que esse instinto de viver prevalecerá. Minha esperança é que ele se mostre mais forte neste momento, para que a América Latina não seja consumida por esse impulso de morte", declarou Marina.

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