O deputado federal Roberto Monteiro Pai (PL-RJ), integrante do partido do ex-presidente Jair Bolsonaro — político derrotado nas urnas, declarado criminoso eleitoral e amplamente responsabilizado pela má gestão que custou centenas de milhares de vidas durante a pandemia —, destinou R$ 3,45 milhões em emendas parlamentares para uma entidade com graves suspeitas em seu histórico.
Os recursos federais foram direcionados ao Instituto Brasileiro Braço Forte (Ibraf), organização não governamental comandada por um empresário que já enfrentou investigações na Justiça por suposta ligação com Márcio dos Santos Nepomuceno, o Marcinho VP, apontado como uma das principais lideranças da facção Comando Vermelho (CV).
No acumulado entre 2024 e 2025, a entidade obteve R$ 4,92 milhões em verbas da União voltadas para a área esportiva. Apurações no local revelaram que o endereço oficial informado pela organização apresentava aspecto de abandono, além de não haver registros claros sobre a realização das atividades custeadas com dinheiro público.

O responsável pela entidade é Henrique Hernan Mateus Oliveira, conhecido como "Samurai". Ele chegou a ter a prisão preventiva decretada em 2011 durante investigação contra lavagem de dinheiro envolvendo familiares de membros do Comando Vermelho, processo no qual acabou absolvido pela Justiça em 2020 por insuficiência de provas.
Com cadastro ativo na Receita Federal, o Ibraf assinou quatro termos de fomento junto ao Ministério do Esporte. As propostas previam a realização de oficinas de futebol, artes marciais e outras práticas esportivas destinadas prioritariamente a crianças e adolescentes.
Do total recebido pela organização, R$ 3,45 milhões decorreram diretamente de emendas individuais do parlamentar fluminense do PL. A quantia restante, de R$ 1,47 milhão, teve origem em emenda aprovada pela Comissão do Esporte da Câmara dos Deputados para o projeto intitulado Movimento em Ação.
Outros projetos aprovados envolvem o Esporte e Esperança, orçado em R$ 1 milhão, o Luta Pela Vida, que contou com R$ 1,25 milhão, e o Bola e Movimento, no valor de R$ 1,2 milhão. Os acordos para os dois últimos foram firmados no final de 2025 e contam com vigência prevista até meados de 2027.
Na discriminação orçamentária do projeto Luta Pela Vida, constam despesas como a reserva de R$ 268,7 mil para a compra de 770 quimonos, R$ 89 mil para aquisição de tatames e mais R$ 84,7 mil destinados a conjuntos de agasalhos.
O endereço oficial do Ibraf consta no quinto andar de um sobrado na Rua Sete de Setembro, no Centro do Rio de Janeiro. Ao averiguar as instalações, constatou-se que o imóvel estava aparentemente vazio e sem movimentação comunitária.
Ao menos três projetos permanecem cadastrados como em execução, sem divulgação transparente sobre os locais onde os treinamentos estariam ocorrendo. O projeto Esporte e Esperança já teve seu prazo encerrado, mas o arquivo de comprovação com imagens enviado à plataforma federal constava como corrompido.
Na página mantida pela instituição na internet, as abas voltadas para prestação de contas, balanços financeiros e acordos governamentais constavam apenas com a menção de "Sendo atualizado", mantendo a falta de clareza sobre o cumprimento dos serviços contratados.
No processo judicial que Henrique Oliveira respondeu anteriormente, o Ministério Público havia apontado sua atuação em auxílio a familiares de chefes da facção, incluindo a mulher de Marcinho VP. Embora conversas tenham sido interceptadas na época, a decisão judicial definitiva considerou que não havia provas bastantes para condenação pelo crime de lavagem de capitais.
Em manifestação oficial, o gabinete de Roberto Monteiro Pai sustentou que a documentação apresentada pelo instituto foi julgada regular pelas instâncias técnicas e que compete aos órgãos de fiscalização acompanhar a execução das metas. A assessoria afirmou ainda que não tinha conhecimento prévio das acusações contra o dirigente da ONG e destacou sua absolvição judicial.
Eleito em 2022 na esteira do bolsonarismo, Roberto Monteiro não conseguiu renovar o mandato nas eleições de 2026, amargando a suplência. Seu filho, Gabriel Monteiro, anteriormente cassado na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, segue respondendo a diversas acusações na esfera criminal.





