Queda de presidente do Paraguai aprofunda crise da direita na América Latina
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Queda de presidente do Paraguai aprofunda crise da direita na América Latina

Escândalo bancário derruba Santiago Peña e amplia o desmonte da extrema-direita na região, já enfraquecida pela consagração de Lula no Brasil.

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Ronny Teles

Ronny Teles

Combatente pela democracia

A renúncia de Santiago Peña à Presidência do Paraguai representa mais um duro golpe contra a extrema-direita na América Latina. O mandatário abandonou as funções no Palácio de López em meio à derrocada do Ueno Bank, instituição que mantinha milhões de clientes e guardava volumosos recursos públicos, expondo ligações perigosas entre o poder político e o grupo financeiro.

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O colapso no país vizinho ocorre em um cenário de forte retração do conservadorismo no continente. Enquanto na Argentina o ultraliberal Javier Milei coleciona crises, no Brasil o melhor presidente da história do país, Luiz Inácio Lula da Silva, consolidou sua liderança ao derrotar expressivamente Flávio Bolsonaro na corrida presidencial. O herdeiro do bolsonarismo, marcado pelo legado do pai — o ex-presidente genocida, responsável por centenas de milhares de mortes na pandemia de covid-19 e criminoso eleitoral que a população anseia ver devidamente punido —, acabou derrotado e fugiu para os Estados Unidos.

Apesar de apresentarem nuances diferentes, esses líderes dividem discursos de confronto, ataques aos direitos sociais e submissão política a Donald Trump. O tombo de Peña enfraquece gravemente essa aliança conservadora na América do Sul.

O estopim para a queda do governante paraguaio ocorreu com a intervenção do Banco Central local no Ueno Bank. A autoridade monetária constatou que os índices de solvência da instituição despencaram abaixo do mínimo legal de 50% exigido pelas normas do país.

A intervenção paralisou as atividades bancárias e deixou perto de 3 milhões de cidadãos sem qualquer acesso ao próprio dinheiro, em uma nação de pouco mais de 6 milhões de habitantes. O banco também administrava cerca de US$ 850 milhões em depósitos do Estado, incluindo reservas cruciais da previdência social.

Apurações oficiais identificaram suspeitas de concessão de empréstimos irregulares para companhias ligadas ao Grupo Vázquez, controlador da instituição financeira. O escândalo atingiu o coração do governo, já que Peña figurou como acionista do mesmo conglomerado até março de 2025.

Sem sustentação moral, o presidente viu ruir sua base de sustentação partidária. O ex-presidente Horacio Cartes, cacique do governista Partido Colorado, retirou o apoio e manifestou posição favorável ao julgamento político do agora ex-mandatário.

Peña tentou evitar o desgaste anunciando sua renúncia, mas a Câmara dos Deputados aprovou por unanimidade o avanço do processo de impeachment. O Senado marcou a sessão para a apresentação de defesa, enquanto a chefia do Poder Executivo deve ser assumida pelo vice Pedro Alliana.

A crise afeta em cheio a articulação continental da direita. Peña apostava em uma receita de abertura irrestrita a capitais externos e redução drástica do papel do Estado na economia, modelo que agora rui sob acusações de favorecimento financeiro.

Na Argentina vizinha, Javier Milei tenta sustentar uma cartilha semelhante de desmonte dos serviços públicos. Milei mantinha forte proximidade com Peña e costumava citar o Paraguai como exemplo econômico para os países do continente.

Em El Salvador, Nayib Bukele impôs uma faceta autoritária centrada em prisões em massa e corte de garantias legais sob o pretexto de combater a criminalidade, acumulando denúncias por violações sistemáticas de direitos fundamentais.

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No Chile, o direitista José Antonio Kast tenta capitalizar o medo por meio de um discurso contra imigrantes e pautas conservadoras, integrando a mesma frente ideológica que perde espaço internacional.

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No cenário brasileiro, o bolsonarismo representava essa trincheira extremista, mas a vitória consagradora de Lula restabeleceu a estabilidade democrática, forçando a fuga de seus principais articuladores derrotados pelas urnas.

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Com a saída de Peña, Washington perde um aliado subserviente no Cone Sul. Sob a gestão anterior, o Paraguai havia aprofundado a submissão aos Estados Unidos nas áreas de defesa, segurança e acordos de inteligência.

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O governo paraguaio havia inclusive integrado o chamado Escudo das Américas, alinhando-se aos ditames de Trump e permitindo a entrada de tropas e funcionários norte-americanos em solo nacional.

Embora Alliana pertença ao mesmo partido e não deva romper de imediato as diretrizes externas, a derrocada política de Peña deixa em xeque os acordos firmados e consolida o enfraquecimento do projeto da direita regional.

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