Mulheres do povo Yanomami divulgaram um manifesto contra a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República e declararam apoio à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. As lideranças temem que uma vitória do senador do PL provoque uma nova expansão do garimpo ilegal e agrave as condições de saúde no território indígena.
As manifestações ocorreram na comunidade de Rokoari, onde indígenas gravaram um vídeo no fim de setembro. Elas relataram as consequências da invasão garimpeira e associaram o avanço da atividade ilegal à disseminação de doenças, à fome e às dificuldades de acesso ao atendimento médico.
Dados do Sistema de Informação da Atenção à Saúde Indígena mostram que 420 crianças Yanomami com menos de cinco anos morreram por causas evitáveis entre 2019 e 2022, durante o governo Jair Bolsonaro.
O número é quase o dobro das 244 mortes registradas nos quatro anos anteriores e revela a dimensão da crise humanitária enfrentada pelas comunidades.
Entre as crianças mortas de 2019 a 2022, 47 foram vítimas de malária e outras 115 apresentavam desnutrição.
Em fevereiro de 2023, a Fundação Nacional dos Povos Indígenas estimava que aproximadamente 20 mil garimpeiros estavam na região. Entre 2020 e 2022, foram identificados mais de 1,5 mil pontos de mineração ilegal, responsáveis pela devastação de 2,2 mil hectares.
A invasão garimpeira também prejudicou os serviços de saúde. Pelo menos seis unidades fecharam ou sofreram destruição, deixando 72 comunidades e mais de 4 mil indígenas sem assistência médica.
A Terra Indígena Yanomami abriga cerca de 31 mil habitantes e ocupa uma área próxima à extensão territorial de Portugal. Papiu, onde vive uma das participantes do manifesto, esteve entre as regiões mais afetadas pelos garimpeiros.
Noemia, moradora de Papiu, demonstrou preocupação com a possibilidade de uma nova deterioração das condições sanitárias.
"Eu não quero o filho do Bolsonaro. Não quero nossos filhos cheios de malária de novo", afirma a indígena.
As mulheres também divulgaram uma carta que relaciona o aumento das doenças e da desnutrição à exploração ilegal de ouro e à atuação do governo anterior.
"O rastro de Bolsonaro é contaminado por doenças, está cheio de malária, diarreia, verminoses, feridas, pneumonia, tomado pela desnutrição, vômito e coceira. O caminho de Bolsonaro é assim e por isso nós, mulheres da floresta, não queremos que seu filho Flávio assente na cadeira de presidente", diz o manifesto.
Adneia Yanomami resumiu o temor das comunidades diante do risco de uma nova crise: "Não queremos voltar a chorar".
As lideranças afirmam que a população ainda sofre as consequências da invasão e defendem a continuidade das ações de proteção territorial, combate ao garimpo e assistência à saúde conduzidas pelo governo Lula.
A expansão da mineração ilegal fechou unidades de saúde e dificultou o trabalho das equipes médicas dentro da Terra Indígena Yanomami.
"O desastre socioambiental promovido pelo garimpo ilegal e a correspodente omissão do estado brasileiro em garantir segurança territorial ao povo Yanomami tiveram, por fim, o efeito disruptivo de colapsar a já fragilizada assistência sanitária no território", afirma um relatório do Ministério Público Federal.
O posto de Homoxi, responsável pelo atendimento de aproximadamente 250 indígenas, funcionava perto de uma área de mineração e foi incendiado em dezembro de 2022. As suspeitas recaíram sobre garimpeiros que ocupavam ilegalmente a região.
O posto de Kayanau também interrompeu suas atividades. Profissionais de saúde estimaram a presença de 1,6 mil garimpeiros nas proximidades e relataram movimentação de aeronaves, prostituição e abandono das atividades agrícolas.
Além de comprometer o atendimento médico, a invasão dificultou o transporte de medicamentos e equipamentos para comunidades que dependem de aeronaves.
Em setembro de 2022, a Hutukara Associação Yanomami enviou um ofício às autoridades sobre a falta de medicamentos em Xitei e Surucucu, regiões também afetadas pela presença de garimpeiros.
O documento registrou a morte de seis crianças em apenas três semanas, entre agosto e setembro daquele ano. Uma delas morreu de pneumonia relacionada a uma infestação de vermes.
A associação denunciou que os postos não possuíam "medicamentos necessários para o controle de verminoses, impossibilitando o tratamento e a prevenção em comunidades inteiras".
Investigações do Ministério Público Federal também encontraram indícios de irregularidades na compra de medicamentos destinados à população Yanomami.
Em 2021, o Distrito Sanitário Especial Indígena Yanomami reservou R$ 3 milhões para adquirir remédios essenciais. Há suspeitas de que fornecedores entregaram apenas parte dos produtos, apesar de terem recebido o pagamento integral das notas fiscais.
Mais de 10 mil crianças indígenas podem ter ficado sem tratamento adequado contra verminoses. Há relatos de pacientes que chegaram a expelir vermes pela boca devido ao agravamento das infecções.
As suspeitas de fraude e desvio de recursos integram as apurações sobre as falhas na assistência médica durante a crise humanitária.
Ao assumir o terceiro mandato, em janeiro de 2023, Lula reconheceu a emergência sanitária e determinou medidas para enfrentar o colapso da assistência à saúde. O governo federal mobilizou órgãos públicos para atender a população e proteger o território.
A crise revelou os efeitos da mineração ilegal sobre a saúde, a segurança alimentar e o meio ambiente. O avanço do garimpo contaminou rios, destruiu áreas de floresta e prejudicou atividades de subsistência.
A deterioração das condições sanitárias foi relacionada aos impactos da mineração e à falta de proteção territorial durante o governo Bolsonaro. As mortes evitáveis de crianças passaram de 244, entre 2015 e 2018, para 420, entre 2019 e 2022.
No manifesto divulgado durante a campanha eleitoral de 2026, as mulheres Yanomami recordam as mortes, as doenças e a interrupção dos serviços públicos para explicar por que rejeitam Flávio Bolsonaro.
As lideranças defendem a continuidade das políticas de proteção da Terra Indígena Yanomami e apoiam a permanência de Lula na Presidência, diante do temor de que a família Bolsonaro represente a volta do garimpo ilegal e de uma crise que ainda deixa marcas profundas nas comunidades.





