Um dia antes do incêndio que atingiu a Universidade Federal de Pernambuco, no Recife, o deputado federal eleito Thiago Medina, do PL de Pernambuco e aliado de Flávio Bolsonaro, revelou que organizava grupos anti-Lula em universidades do estado. Ele nega qualquer envolvimento com o incêndio ou com ameaças dirigidas a estudantes favoráveis ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
A declaração foi publicada na terça-feira, 6 de outubro. Na noite de quarta-feira, 7 de outubro, um prédio da UFPE foi atingido pelo fogo, enquanto denúncias de ameaças de bomba contra estudantes ganhavam repercussão nas redes sociais.
Medina contou que havia retornado às universidades acompanhado de Gilson Filho, eleito deputado estadual pelo PL, para distribuir material da campanha de Flávio Bolsonaro e formar grupos contrários a Lula.

Na entrevista, Medina afirmou: "Hoje mesmo já voltei às universidades para distribuir material do Flávio". Em seguida, acrescentou: "Estamos fazendo muitos grupos de faculdade anti-Lula". Segundo ele, a mobilização ocorria em diferentes regiões de Pernambuco.
A iniciativa foi apresentada como parte da estratégia para ampliar a votação de Flávio Bolsonaro no estado. No primeiro turno, Lula recebeu 63,45% dos votos em Pernambuco, enquanto o adversário teve 31,03%.
Capturas de tela divulgadas nas redes sociais mostraram grupos universitários chamados "UFPE ANTI-LULA", "UNINASSAU BV ANTI-LULA" e "Universidades ANTI-LULA | Grupo 3". O último aparecia com 1.015 integrantes e uma imagem da campanha de Flávio Bolsonaro.
Registros de dois desses espaços mostravam um número de telefone identificado como "Thiago Medina". Em uma das imagens, a conta aparecia como administradora de um grupo com 296 participantes. A titularidade do número, porém, não foi confirmada de forma independente.
Embora Medina tenha declarado publicamente que participava da criação de grupos nas faculdades, os registros disponíveis não demonstram que todos os grupos divulgados tenham sido criados por ele, pertençam à mesma estrutura ou tenham sido abertos em determinada ordem.
As imagens também não comprovam que as ameaças tenham sido enviadas nesses grupos específicos. Entre os registros compartilhados nas redes havia ameaças contra departamentos universitários, manifestações de apoio a Flávio Bolsonaro e mensagens de intimidação a estudantes.
Uma das capturas dizia: "FIQUEM ESPERTOS COM A BOMBA". Os recortes não permitem identificar o autor da mensagem nem estabelecer com segurança a data original de todos os envios.
O incêndio atingiu a Diretoria de Inovação e Empreendedorismo da UFPE, na Cidade Universitária, Zona Oeste do Recife. O Corpo de Bombeiros mobilizou cinco viaturas para atender à ocorrência. O episódio aconteceu um dia depois de uma mobilização universitária favorável a Lula.
Foi o terceiro incêndio registrado na universidade em aproximadamente uma semana. Os casos anteriores ocorreram em 30 de setembro, em um laboratório do Departamento de Física, e em 5 de outubro, no Centro de Biociências. Não há confirmação de ligação entre as ocorrências.
O deputado federal eleito Jones Manoel, do PSOL de Pernambuco, informou que pediria uma investigação sobre as causas do incêndio e a possibilidade de origem criminosa.
Até o momento, não há comprovação de que o fogo tenha sido provocado intencionalmente. Também não existem provas de que Medina, os grupos anti-Lula ou os autores das ameaças estejam ligados ao incêndio.
Em vídeo publicado nas redes sociais, Medina negou envolvimento com grupos responsáveis por ameaças e com o incêndio na UFPE. Ele também anunciou que pretende processar quem fez essa associação.
Medina já havia sido acusado de racismo após comentar uma manifestação de mulheres negras realizada na Câmara Municipal do Recife, em 1º de setembro. O protesto reuniu cerca de 30 pessoas em solidariedade à vereadora Jô Cavalcanti, do PSOL, única mulher negra da atual legislatura municipal.
Na tribuna, Medina disse ter ficado "com mais medo do odor" ao chegar ao local da manifestação. Jô Cavalcanti acusou o então vereador de dirigir uma declaração racista às mulheres presentes e anunciou representações contra ele na Comissão de Ética da Câmara e no Ministério Público de Pernambuco. Na ocasião, a assessoria de Medina foi procurada, mas não respondeu.





