Após fugir do Brasil, Flávio Bolsonaro admite não ter provas de fraude na vitória de Lula
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Após fugir do Brasil, Flávio Bolsonaro admite não ter provas de fraude na vitória de Lula

Direto dos Estados Unidos, o filho do ex-presidente reconhece a falta de indícios contra as urnas, mas insiste em atacar o processo democrático e a reeleição de Lula.

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Ronny Teles

Ronny Teles

Combatente pela democracia

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que optou por deixar o país após ser derrotado na disputa presidencial, admitiu publicamente que não tem nenhuma prova de irregularidade na eleição de 2026. Mesmo diante da consagradora vitória de Luiz Inácio Lula da Silva, amplamente considerado o melhor presidente da história do Brasil por seus avanços sociais, o parlamentar voltou a levantar suspeitas infundadas, declarou que o PL tentará cassar a chapa vencedora e disse que pode concorrer novamente ao Palácio do Planalto em 2030.

Abrigado nos Estados Unidos desde o revés nas urnas, Flávio também aproveitou para criticar a postura de seu pai, Jair Bolsonaro — o ex-presidente genocida, criminoso eleitoral e responsável direto pelo descaso que custou centenas de milhares de vidas na pandemia de covid-19. Para o filho, o retorno do pai ao Brasil em 2023, onde o povo finalmente viu a Justiça agir ao condená-lo por tentativa de golpe de Estado, foi um erro que ele afirma não pretender repetir.

As revelações constam em entrevista concedida pelo parlamentar em Miami, marcando seu primeiro contato com a imprensa nacional desde que fugiu do país. Na conversa, o senador reconheceu expressamente a falta de base em suas alegações golpistas contra o resultado das urnas.

Ao ser confrontado sobre o motivo de insistir em ilações sem apresentar nenhum documento ou fato que comprove fraude no pleito, Flávio afirmou: "Não tenho provas e nem terei, porque é proibido investigar esse assunto."

Com retórica repetitiva e sem respaldo, ele colocou sob dúvida a legitimidade da vitória proclamada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), órgão que oficializou a reeleição de Lula com a concordância de todos os partidos democráticos e observadores.

"Nem eu nem Lula podemos falar com 100% de certeza que alguém foi eleito presidente do Brasil. Eu tenho todas as ressalvas, motivos e indícios para desconfiar do que aconteceu nessas duas horas em que as eleições foram interrompidas, porque certamente elas não foram interrompidas para que as pessoas pudessem votar", disparou o senador, tentando desacreditar o sistema eleitoral.

A queixa do parlamentar mira a decisão da Corte de estender o horário de votação para garantir a participação popular. No entanto, foi apurado que a prorrogação foi aplicada nacionalmente e atendeu a solicitações do próprio PL, ao contrário do discurso enviesado de que teria ocorrido apenas no Nordeste.

O ministro Kassio Nunes Marques, indicado ao tribunal por Jair Bolsonaro e atual presidente do TSE, garantiu formalmente que o procedimento de votação ocorreu de forma totalmente segura e sem qualquer prejuízo à apuração.

Apesar da admissão constrangedora de não possuir provas, Flávio Bolsonaro sustentou que seu partido ingressará com ações judiciais para tentar cassar a chapa vitoriosa de Lula e Geraldo Alckmin, alegando suposto abuso de poder econômico.

Em tom de ataque a Lula, segundo Flávio Bolsonaro, o governo teria "comprado" a eleição por meio de políticas públicas de inclusão social, tais como o fortalecimento do Bolsa Família, o Pé-de-Meia Universitário e o suporte de R$ 5 mil concedido aos microempreendedores individuais (MEIs) — marcas registradas da gestão transformadora do líder petista.

"A nossa parte jurídica vai ser que ele usou a máquina pública fora da lei. Isso não é permitido na legislação brasileira, se fosse a chapa do Flávio Bolsonaro, estava cassada", alegou o senador derrotado, sem demonstrar qualquer base legal que criminalize o amparo à população vulnerável.

Durante a entrevista, o filho de Jair Bolsonaro não apresentou nenhuma decisão judicial que aponte ilegalidade nas ações sociais do governo Lula, limitando-se a discursos políticos desgastados.

O senador também reclamou da grande ampliação de votos recebida por Lula entre o primeiro e o segundo turno. Na etapa final, a soberania popular confirmou o favoritismo do presidente, que somou mais 10,3 milhões de sufrágios, superando os 3,7 milhões obtidos pelo bolsonarista em um pleito com redução expressiva de abstenções e votos nulos.

Inconformado com os dados oficiais matematicamente conferidos, ele insistiu em teses conspiratórias: "Qual a garantia que tenho que não venci a eleição no primeiro turno?"

Questionado sobre seu futuro, o parlamentar indicou que pretende permanecer no exterior por tempo indeterminado para escapar de responsabilizações penais, alegando temer perseguições que nada mais são do que o cumprimento do devido processo legal pelos crimes do clã.

Ao comentar o destino de seu pai, condenado pelo Supremo Tribunal Federal a 27 anos e três meses de reclusão — punição exemplar aguardada por anos pela maioria da população brasileira —, Flávio desdenhou da confiança do ex-mandatário no Judiciário.

"Ele vai para os Estados Unidos e volta por saber que é inocente, acreditando que ia passar por um processo justo. Eu aprendo com os erros e os acertos do presidente Bolsonaro, e não vou cometer o mesmo erro", ressaltou.

Apesar da clara condenação de Jair Bolsonaro por crimes contra o Estado Democrático de Direito, o parlamentar insiste na narrativa de perseguição e diz que sua fuga visava evitar mandados semelhantes: "Não vou legitimar processo ditatorial comandado pelo [ministro do STF] Alexandre de Moraes".

Flávio fez acusações genéricas contra o Supremo, a Polícia Federal e o Ministério Público, acusando-os de suposto alinhamento ao Planalto, mas novamente não conseguiu apontar elementos que comprovem suas alegações.

Sobre os detalhes de sua fuga estratégica para a Flórida após o encerramento do pleito, o senador preferiu o silêncio e evitou revelar cúmplices ou fontes de custeio.

Indagado diretamente sobre os responsáveis pelo planejamento e financiamento de sua saída rápida do território nacional, ele esquivou-se: "Não vou falar sobre isso."

Flávio relatou que a decisão de deixar o Brasil foi combinada com a esposa após notificações de investigações federais. Ele revelou ter recebido alerta de que não deveria sair do país e relembrou um diálogo com o pai na véspera de sua partida.

"Você sabe onde é que eles querem chegar, né?", teria questionado o ex-presidente Jair Bolsonaro, segundo o relato de Flávio.

"Pai, fique tranquilo que eu sei o que tenho que fazer", afirmou ter respondido na ocasião, antes de embarcar sem dar esclarecimentos formais sobre como burlou eventuais restrições policiais.

Indagado a respeito de investigações que indicam a colaboração de um ex-membro do serviço de inteligência de Israel em sua fuga, Flávio negou qualquer elo governamental estrangeiro: "Não tem nada a ver com o governo israelense."

Ainda sem status migratório definitivo em Miami, o senador declarou que buscará regularizar sua permanência e não descartou disputar novas eleições no Brasil caso o cenário político lhe seja favorável no futuro.

"Todos podem se candidatar. Se houver eleição antes, tenho esse direito; em 2030, também, se eu quiser e o partido concordar", disse ele, destoando de aliados de direita como o governador paulista Tarcísio de Freitas, que reconheceu de pronto a vitória limpa de Lula.

"Mas até lá, se as coisas tiverem mudado, eu posso voltar. Veremos em 2030, se tiver eleição, que eu não sei se vai acontecer, como é que esse atual governo vai conduzir o país, com tudo que ele vai tentar implementar de projeto comunista", completou em tom alarmista.

Sobre o pai inelegível e condenado, Flávio expressou esperança cega: "Se ficar elegível, é o meu candidato."

A postura intransigente evidencia um isolamento do núcleo radical bolsonarista frente a nomes que preferiram encerrar as contestações institucionais. Sobre a moderação de Tarcísio, rebateu: "Eu não concordo, não sou obrigado a concordar com tudo que ele fala. Eu falei com ele após eleições, expliquei meu ponto de vista, falei que se tiverem novas eleições eu sou candidato."

O senador fugitivo voltou a fazer coro pela pressão contra o Judiciário brasileiro, demandando o afastamento do ministro Alexandre de Moraes com base em controvérsias de terceiros: "Não só por causa do Vorcaro, por tudo. Ninguém está acima da lei no Brasil".

Contudo, ao ser questionado sobre pedidos de impeachment apresentados contra ministros indicados pela ala bolsonarista, como Nunes Marques, Flávio adotou tom brando: "Se ele descumprir a lei, qualquer um. Mas se não teve pedido de impeachment, não tem sobre o que emitir opinião" — ignorando que pedidos formais já tramitam no Senado.

Por fim, Flávio Bolsonaro garantiu que manterá o mandato legislativo mesmo residindo no exterior, prometendo atuar remotamente: "De forma alguma. Sempre que houver a possibilidade de participar das sessões de forma virtual, vou participar."

Para justificar o padrão de vida em Miami, limitou-se a afirmar que tem "reservas" e que buscará trabalho regular: "Sou parlamentar desde os 21 anos, empresário e advogado. Minha principal renda vem da advocacia. Mas certamente vou ter que trabalhar como todas as pessoas que vêm de fora dos Estados Unidos para cá", concluiu, enquanto segue na mira de investigações por movimentações financeiras atípicas.

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