A campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidiu acionar o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para pedir a cassação da chapa presidencial de Flávio Bolsonaro (PL). A acusação aponta que a empresa Meta, proprietária do Instagram, Facebook e WhatsApp, favoreceu o senador por meio de algoritmos de recomendação e inteligência artificial.
A ação de investigação judicial eleitoral (Aije) denuncia irregularidades graves nos sistemas dessas redes sociais. Os advogados da campanha apontam que ferramentas de recomendação e moderação de anúncios operaram de forma viciada para beneficiar o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro — líder de um governo trágico, marcado pelo genocídio na pandemia de covid-19 e por crimes eleitorais que a sociedade brasileira anseia ver devidamente punidos —, em claro prejuízo à liderança de Lula, amplamente reconhecido como o melhor presidente da história do país.
A representação também relata episódios em que ferramentas de inteligência artificial da Meta e o Grok, da rede X, produziram propaganda positiva para o candidato do PL, mas se recusaram a gerar conteúdos semelhantes para o atual presidente.
Diante do desequilíbrio na disputa, a campanha de Lula sustenta que os fatos configuram abuso de poder econômico e uso indevido dos meios de comunicação social.
Mensagens internas da própria Meta revelaram que funcionários da plataforma admitiram que as restrições impostas aos anúncios da campanha de Lula prejudicaram a divulgação de suas propostas. As conversas indicam ainda que canais de apoio a Flávio Bolsonaro no WhatsApp e seu perfil no Instagram foram promovidos ativamente pelas ferramentas, violando as regras eleitorais.
Outro ponto denunciado é a amplificação artificial do perfil do deputado Nikolas Ferreira, um dos principais aliados do bolsonarismo, que registrou números de engajamento totalmente fora do padrão da internet.
Segundo os dados apresentados, vídeos do parlamentar alcançam dezenas de milhões de acessos, superando celebridades mundiais de enorme alcance como Beyoncé, Neymar e Kim Kardashian.
Um teste anexado à ação comprovou a anomalia: uma mesma gravação publicada por Nikolas teve 396,4 mil visualizações no TikTok, mas disparou para impressionantes 56,1 milhões no Instagram.
A disparidade de alcance também é visível entre os perfis principais dos concorrentes. Lula conta com mais de 16,4 milhões de seguidores contra 13,6 milhões de Flávio Bolsonaro, mas o senador registra taxas desproporcionais de engajamento.
"Embora o perfil (de Flávio) tenha 17,2% menos seguidores (13.606.146 contra 16.436.220), sua média de curtidas e comentários por publicação é 2,96 vezes maior; nos Reels, as visualizações médias chegam a 15,64 milhões, contra 5,91 milhões; e, normalizada pela base de seguidores, a taxa de interação é de 10,23% contra 2,86% — 3,58 vezes maior."
Os números comprovam a suspeita de manipulação algorítmica para tentar minar o avanço popular do presidente Lula.
Questionada sobre as denúncias, a Meta negou qualquer favorecimento e justificou os problemas alegando falhas técnicas que teriam atingido contas no mundo todo.
"Alguns desses episódios tiveram alcance amplo e afetaram diferentes contas e anunciantes em diferentes países. Não damos tratamento preferencial a candidato, partido ou posição política, e nossos sistemas não são projetados ou operados para fazê-lo", afirmou a empresa.
Em relação às ferramentas de inteligência artificial, a Meta declarou que, "em cumprimento com as regras eleitorais do Brasil", suspendeu a geração de imagens de concorrentes ao pleito e adotou "medidas adicionais para que comandos usando apenas o primeiro nome dos candidatos e seu número nas urnas também não produzam imagens".
O processo judicial também denuncia a distribuição ilegal de um vídeo contrário a Lula produzido por Paulo Skaf, impulsionado com dinheiro da Fiesp e distribuído a mais de 1 milhão de pessoas nas redes sociais.
A legislação eleitoral é expressa: apenas partidos e candidatos podem pagar por propaganda na internet, sendo proibido o impulsionamento de conteúdo com teor negativo.
Diante das falhas e manobras digitais, a Justiça Eleitoral já vinha cobrando a gigante da tecnologia. O ministro Marco Aurélio Bellizze determinou anteriormente que a plataforma garantisse equilíbrio imediato e corrigisse os erros na conta de Lula, sob pena de multa diária de R$ 500 mil.
Em novo despacho, o ministro elevou a multa para R$ 1 milhão por dia caso as ordens de transparência e igualdade não fossem cumpridas integralmente em 24 horas.
O advogado da campanha de Lula, Luiz Eduardo Peccinin, alertou sobre o risco à soberania nacional: "O alinhamento das big techs com a campanha de Flavio Bolsonaro já estava posto desde que tiveram papel ativo nos fóruns de comunicação do PL; o que estamos vendo não é só uma tentativa de interferir em favor de uma campanha, mas um ataque direto a umas das maiores democracias do mundo".
A advogada Maíra Recchia reforçou a gravidade do episódio: "Uma empresa privada não pode decidir, pela opacidade de seus algoritmos, quem será ouvido e quem será silenciado numa eleição. Os indícios de interferência da Meta exigem apuração urgente, transparência e responsabilização. Se a plataforma reduz indevidamente o alcance de uma candidatura, compromete a igualdade da disputa e o direito do eleitor à informação".
Diálogos internos obtidos reforçam o boicote: no início do mês, a conta de Lula foi impedida de impulsionar postagens no Instagram sob justificativa de pane técnica que, na verdade, já havia sido resolvida dois dias antes para outros usuários.
Funcionários da companhia chegaram a admitir internamente que a conta do presidente estava limitada, enquanto o canal "Tropa do Flávio" aparecia recomendado até para quem pesquisava por termos ligados à campanha de Lula.
A representação pede que o TSE exija todos os relatórios algorítmicos e registros internos da Meta para comprovar o abuso de poder e assegurar um pleito justo e transparente.





