O presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ministro Kassio Nunes Marques, encaminhou às empresas de tecnologia um ofício que libera a recomendação algorítmica de perfis e publicações de candidatos eleitos no primeiro turno. A interpretação beneficia a campanha presidencial do senador Flávio Bolsonaro, apoiado por políticos com grande alcance nas redes sociais.
A resolução sobre propaganda eleitoral, publicada pelo TSE em março, proibia as plataformas de recomendar canais, perfis e publicações informados à Justiça Eleitoral pelos candidatos. Com isso, os conteúdos alcançavam principalmente seguidores antigos, enquanto a ampliação do público dependia de impulsionamento pago.
As empresas de internet haviam adotado uma posição cautelosa e mantido a restrição para todos os canais cadastrados até o encerramento do segundo turno. Parlamentares bolsonaristas, entre eles o senador eleito Gustavo Gayer, pediram a Kassio Nunes Marques uma revisão dessa interpretação.
No documento, o ministro estabeleceu que "a obrigação de não recomendação mediante algoritmos deve continuar exclusivamente sobre os perfis vinculados aos candidatos que permanecem na disputa do segundo turno".
Dados reunidos no fim de setembro mostram a força digital de aliados do bolsonarismo. O deputado Nikolas Ferreira liderava o ranking no Instagram com 22,3 milhões de seguidores, enquanto Michelle Bolsonaro aparecia na sexta colocação, com 8,4 milhões. Flávio Bolsonaro estava em terceiro lugar, com 11,9 milhões.
O presidente Lula era o único representante da esquerda entre os dez candidatos com maior projeção de seguidores na plataforma. Com 15,4 milhões, ocupava a segunda posição. Como disputa o segundo turno contra Flávio Bolsonaro, seu perfil continua impedido de receber recomendações algorítmicas.
Com a liberação, as contas de Nikolas Ferreira e Michelle Bolsonaro podem ampliar organicamente publicações favoráveis a Flávio Bolsonaro, sem a necessidade de pagar pelo impulsionamento. A mudança aumenta o peso digital dos aliados do candidato bolsonarista na reta final da campanha.
Um estudo da empresa de inteligência de dados Zeeng também apontou o predomínio da direita entre os políticos mais influentes no Instagram durante o primeiro semestre de 2026. O PL concentrava 40% dos 100 perfis com melhor desempenho, seguido pelo Novo, com 9%, e pelo Podemos, com 8%.
No recorte por posição política, a direita reunia 55% dos perfis e a centro-direita, 21%. A esquerda registrava 11%, o centro tinha 8% e a centro-esquerda somava 5%. O levantamento era liderado por Nikolas Ferreira, Michelle Bolsonaro e Lucas Pavanato, todos eleitos no primeiro turno.
A análise considerou o engajamento médio por publicação entre 1º de janeiro e 30 de junho de 2026. Entre os 55 nomes de direita presentes na lista, 39 conquistaram mandato, um disputava o segundo turno, cinco não foram eleitos e dez não participaram da eleição. Entre os 11 representantes da esquerda, sete foram eleitos, um disputava o segundo turno, um não venceu e dois não concorreram.
A professora de direito eleitoral Marilda Silveira observou que a legislação não estabelecia de forma clara até quando a restrição aos algoritmos deveria permanecer em vigor nos perfis dos candidatos.
Apesar dessa falta de clareza, a especialista questionou a competência do presidente do TSE para mudar a interpretação durante a eleição. "O ministro presidente não tem competência para suprir omissão de resolução", afirmou.
Silveira também alertou para o risco de alterar as regras a poucos dias da votação. "Hoje é possível aferir quem tem mais peso a partir do número de seguidores e o alcance nas redes sociais. Ao tomar uma decisão para um processo eleitoral que já está acontecendo, você sabe a quem você está beneficiando e prejudicando", analisou. Segundo ela, "quem tiver a maior base de acesso ao eleitorado vai ter vantagem. É como se colocasse um exército na rua".





