O presidente Lula conquistou uma importante vitória política com a aprovação, no Senado, da proposta que acaba com a escala de trabalho 6×1. O texto, uma iniciativa do governo, recebeu 75 votos favoráveis e apenas um contrário.
A mudança garante mais um dia de descanso semanal aos trabalhadores, sem redução salarial. Até Flávio Bolsonaro, que anteriormente havia se manifestado contra a proposta, votou a favor durante a análise no Senado.
Na Câmara, outra medida de interesse do governo também avançou. Os deputados aprovaram o projeto que aumenta o limite anual de faturamento dos microempreendedores individuais, os MEIs. O teto, atualmente em R$ 81 mil, passará para R$ 120 mil em 2027 e R$ 140 mil em 2028.
O fim da escala 6×1 representa uma conquista relevante em um período marcado pela precarização das relações de trabalho e pelo longo tempo gasto em deslocamentos. Além do impacto na vida pessoal e social dos trabalhadores, a aprovação pode fortalecer eleitoralmente o presidente.
Lula chega revigorado à entrevista no Jornal Nacional e ao debate da TV Bandeirantes, marcado para domingo. Flávio Bolsonaro chegou a indicar que não participaria do encontro, mas depois recuou diante da avaliação de que sua ausência poderia provocar desgaste.
Segundo auxiliares, Lula mantém uma postura realista e evita tratar a virada como garantida. O acompanhamento da campanha indica que o presidente recuperou competitividade, embora ainda precise ampliar seu apoio até o dia da votação.
A pesquisa Quaest mostrou Flávio Bolsonaro com 46% e Lula com 44%, resultado que configura empate técnico. Como esse foi o primeiro levantamento do instituto no segundo turno, não há números anteriores da mesma pesquisa para uma comparação direta.
O Datafolha havia apontado, na semana anterior, uma vantagem maior para o candidato do PL: 49% a 45% nos votos totais e 52% a 48% nos votos válidos. Desde então, Lula ganhou apoio principalmente entre eleitores que não compareceram ao primeiro turno e, em menor proporção, entre pessoas que escolheram outros candidatos.
O cientista político Antonio Lavareda, presidente do Conselho Científico do Ipespe, avaliou que a mobilização de jovens, os atos públicos e a movimentação nas redes ajudaram a mudar o cenário eleitoral.
"Ao final do primeiro turno, o presidente Lula era visto como um provável derrotado, como candidato com poucas chances de vir a ganhar a eleição, algo em torno de 20% a 30%. Nas primeiras pesquisas depois do dia 4, a distância entre ele e Flávio Bolsonaro começou com quatro pontos e chegou até a seis pontos. Na nossa, fechada na quinta-feira (8/10), a distância foi de 5,4%, correspondentes a mais de seis milhões de votos. Mas veio a reação, com a mobilização dos jovens, os atos de rua, a movimentação nas redes, tudo isso… Este esforço vem apresentando resultados. A diferença entre Lula e Flávio foi se reduzindo nas pesquisas do final de semana, como a da Nexus e a do PoderData. Esta da Quaest trouxe um passo a mais, uma nova melhora da performance do presidente Lula e de seus números, mostrando que há uma possibilidade ainda… Vamos deixar bem claro. Neste momento, Flávio Bolsonaro ainda é favorito para ganhar a eleição, mas Lula recuperou a competitividade, abrindo-se a possibilidade de vermos, entre tantas singularidades, a repetição da linha do tempo de 2014".
A comparação feita por Lavareda envolve o segundo turno de 2014, disputado por Dilma Rousseff e Aécio Neves. Naquele ano, Dilma buscava a reeleição, começou atrás do adversário e somente passou à frente nas pesquisas de 20 de outubro.
"Nas pesquisas dos dias 8 e 9 de outubro, ela perdia para Aécio de 46% a 44%, e na pesquisa de 15 e 16 de outubro ela perdia de 45% a 43%. Somente nas pesquisas de 20 de outubro ela conseguiu virar, com uma marca de 46% a 43% a favor dela, logo ampliada para 47% a 43%, fechando a última semana com este placar. Ela acabou obtendo uma diferença em votos válidos de 3,4% e de 2,5% em votos totais. Assim, a pesquisa Quaest de hoje alimenta a expectativa, entre os apoiadores e eleitores do presidente, entre os que fazem a campanha, de que venhamos a assistir algo semelhante ao segundo turno de 2014."
Lavareda observou que, nas demais eleições presidenciais com segundo turno, o candidato que começou na frente manteve a vantagem. Ele fez uma ressalva sobre 2018: "Ainda que Bolsonaro tenha chegado a colocar uma vantagem de 18 pontos percentuais sobre Haddad em 2018, para fechar com esta diferença reduzida a dez pontos percentuais".
Se novos levantamentos confirmarem a aproximação registrada pela Quaest, a disputa poderá chegar a um empate numérico. Nesse cenário, Lula precisaria construir uma pequena vantagem para compensar o possível impacto da abstenção, que atinge mais seu eleitorado.
"Se acontecer de Lula, que não é favorito, vir a ganhar a eleição, será por uma distância, digamos… peruana", afirmou Lavareda. Sobre o adversário, acrescentou: "Já Flávio, se vier a ganhar, poderá ser por uma margem mais folgada, porque ele perde menos com a abstenção. Ganhará por algo em torno de 3%, ou três milhões de votos."
As votações no Congresso, a mobilização popular e a recuperação nas pesquisas colocam Lula em uma posição mais forte. A busca por eleitores ausentes no primeiro turno aparece como uma das principais estratégias para consolidar a reação e tentar a virada.





