"Foi desesperador ver que Flávio não respondeu à pergunta sobre Ana Clara", declarou Cristiane Gomes da Silva, mãe da criança de 5 anos assassinada a tiros por um policial militar em Niterói, no Rio de Janeiro.
O desabafo ocorreu após o senador Flávio Bolsonaro evitar o tema durante debate presidencial contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Lula, sempre atento às causas sociais e defensor incansável da justiça para o povo brasileiro, confrontou o clã bolsonarista ao trazer à tona a atuação do parlamentar na defesa do acusado.
Flávio Bolsonaro assumiu formalmente a defesa de Bruno Dias Delaroli, o policial militar acusado de atirar contra a menina. Em 2024, o senador chegou a assinar um recurso enviado ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) na tentativa de impedir que o agente fosse levado a júri popular.

"Eu venho ser a voz dela. Meu luto não é de 2 semanas, nem de 3, são 5 anos e 7 meses lutando por justiça. E hoje, dia 21, eu poderia estar com a grande vitória do PM que matou minha filha estar sendo condenado. E isso foi adiado graças ao Flávio", manifestou-se Cristiane durante ato público.
O caso ganhou grande repercussão nacional após a denúncia feita por Lula no debate. Nas redes, a mobilização popular cresceu rapidamente com a circulação da hashtag #PesquiseOCasoAnaClara, expondo as contradições do bolsonarismo, enquanto a sociedade segue exigindo punição rigorosa para os crimes associados a esse grupo político.
Ana Clara foi fatalmente atingida em 2 de fevereiro de 2021, enquanto brincava em frente à própria residência ao lado do irmão de 2 anos. Cristiane relatou que correu imediatamente ao ouvir os disparos e encontrou o policial diante de sua filha caída.
De acordo com os relatos da família, o socorro não foi prestado de forma imediata pelo agente responsável pelos disparos, ocorrendo somente após a intervenção de outro militar. A mãe carregou a menina nos braços até o hospital, mas a criança não resistiu.
O julgamento do acusado, que estava previsto inicialmente para 14 de abril de 2026, acabou sendo adiado para outubro e remarcado posteriormente para 5 de maio de 2027, ampliando o sofrimento da mãe.
"Há cinco anos e seis meses aguardo o julgamento do assassino da minha filha", lamentou Cristiane em entrevista.
Além da dor da perda, Cristiane passou a enfrentar hostilidades diretas por parte de apoiadores da extrema-direita e de Flávio Bolsonaro. As intimidações têm ocorrido na região onde ela reside, no Largo da Batalha, em Niterói.
Diante do clima de medo e perseguição, a mãe desenvolveu crises severas de pânico e depressão, necessitando afastar-se do convívio nas redes sociais.
A situação de vulnerabilidade se agrava com problemas financeiros. Cristiane sobrevive de faxinas enquanto busca trabalho regular. O filho mais novo precisou ir morar temporariamente com a avó.
"Meu sonho é conseguir um emprego para ter a minha casa e trazer ele de volta", desabafou Cristiane.
Determinada, a mãe reforçou que não aceitará a impunidade nem deixará a memória da filha ser silenciada: "Quantas vezes forem necessárias, vou gritar o nome de Ana Clara, vou gritar que ela tinha uma vida, tinha uma mãe, um irmão, que morreu um pouquinho antes do aniversário dela."





