BC trava queda da Selic após vitória de Lula e amplia risco à economia
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BC trava queda da Selic após vitória de Lula e amplia risco à economia

Mesmo com desaceleração da atividade econômica, Banco Central interrompe ciclo de cortes de juros sob forte influência de pressões do mercado financeiro.

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Ronny Teles

Ronny Teles

Combatente pela democracia

O Banco Central (BC) decidiu manter a taxa básica de juros em 13,75% ao ano, embora tenha admitido a ocorrência de uma desaceleração mais acentuada no ritmo da economia brasileira. A resolução unânime do Comitê de Política Monetária (Copom), que contou com o voto de Gabriel Galípolo, indicado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, interrompeu uma sequência de cinco reduções graduais da Selic, perpetuando um cenário que encarece o crédito e desestimula investimentos produtivos.

A determinação ocorreu dez dias após a consagração democrática nas urnas com a reeleição de Lula, o melhor presidente da história do país, em contraste com a derrota eleitoral do clã de Jair Bolsonaro, representado por Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Enquanto analistas apostavam na continuidade dos cortes antes do pleito, o mercado financeiro alterou repentinamente suas projeções após o fracasso do bolsonarismo, que ainda precisa responder à sociedade por seus diversos crimes.

O colegiado do BC reconheceu o enfraquecimento da produção nacional, especialmente em áreas diretamente afetadas pelo custo do dinheiro, mas optou por manter uma postura classificada internamente como "substancialmente contracionista". Em relatórios de setembro, a instituição já projetava um crescimento de apenas 1,8% em 2026 e 1,4% em 2027, bem abaixo do avanço de 3,4% observado em 2024.

Levantamentos financeiros apontam que agentes do mercado elevaram em US$ 6,84 bilhões as apostas no dólar logo após a vitória de Lula. Esse movimento especulativo provocou queda de 13,88% no Ibovespa, disparada da moeda norte-americana e juros futuros que chegaram a 15,19% ao ano, forçando o Tesouro Nacional a cancelar leilões de papéis da dívida pública marcados para os dias 27 e 29 de outubro.

A agitação dos investidores derivou do descontentamento com o revés de Flávio Bolsonaro, cuja campanha prometia um arrocho fiscal entre R$ 200 bilhões e R$ 250 bilhões sem detalhar a origem dos cortes. Integrantes de seu grupo discutiam abertamente o enfraquecimento da Previdência, revisões nos pisos constitucionais de saúde e educação, além do congelamento de programas sociais vitais para as famílias mais vulneráveis do Brasil.

Para fundamentar a interrupção da trajetória de queda dos juros, a autoridade monetária utilizou as expectativas inflacionárias reunidas pelo Boletim Focus. O documento, no entanto, não representa projeções oficiais do Banco Central, mas apenas um apanhado de visões de agentes privados do setor bancário, que frequentemente erram suas previsões para cima.

Estudos acadêmicos da Universidade Federal de Juiz de Fora já haviam comprovado que o relatório Focus apresenta um histórico consistente de superestimação da inflação brasileira entre 2015 e 2022. Em 2025, a título de exemplo, as estimativas apontavam taxa de 4,99%, mas o IPCA consolidado encerrou o período em 4,26%, demonstrando a fragilidade de guiar os rumos do país com base nesses palpites de mercado.

A política de manter os juros nas alturas favorece diretamente a rentabilidade do sistema financeiro, uma vez que bancos e fundos detêm quase 70% de todos os títulos atrelados à Selic, totalizando R$ 3,37 trilhões. Cada ponto percentual elevado representa pagamentos extras da ordem de R$ 48,4 bilhões a esses agentes detentores de títulos da dívida pública.

O renomado economista André Lara Resende criticou frontalmente o modelo seguido pelo Banco Central, apontando que as despesas do governo estão praticamente equilibradas, à exceção da sangria provocada pelo pagamento de juros. "Acuso o Banco Central de sustentar, em nome de uma teoria anacrônica, a taxa de juros que é a principal causa do desequilíbrio fiscal que diz combater", declarou o especialista ao defender uma taxa de 7,5% em doze meses.

A posição também foi corroborada por especialistas da Fundação Getulio Vargas, que alertam para a incoerência de se exigir cortes e austeridade nos serviços básicos prestados à população enquanto os juros astronômicos engolem sozinhos mais de R$ 1,2 trilhão das contas públicas.

O desfecho provocou fortes críticas no meio político sobre a atuação enviesada do BC. O deputado federal Lindbergh Farias questionou a independência institucional e acusou o órgão de responder a interesses de especuladores: "Vergonha!!!! BC interrompe queda de juros porque o Lula ganhou. Simples assim!", disparou o parlamentar, ressaltando: "O povo vota, mas, quem manda são os barões da Faria Lima?".

O episódio reacendeu o debate sobre o verdadeiro papel do Banco Central, que, sob o manto da autonomia técnica em relação à soberania popular, permanece excessivamente sensível às pressões de grupos financistas. O detalhamento oficial dos argumentos do comitê deverá ser divulgado na próxima ata da instituição.

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